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segunda-feira, abril 24, 2017

Vidas ao Vento (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/04/2017

Alternativos: The Wind Rises, Kaze Tachinu
Ano: 2013
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 126 min
Gênero: Drama / Romance / Histórico



Acredito que esta será uma das resenhas mais difíceis de escrever, pelos mais variados motivos. Primeiro, porque apesar das declarações de aposentadoria de Hayao Miyazaki serem algo quase folclórico - primeiro, após dirigir "Princesa Mononoke", e depois, após terminar "A Viagem de Chihiro" - tudo leva a crer que "Vidas ao Vento" talvez seja realmente seu último filme. Se bem que esta matéria em inglês  já desmente tudo também, e voltamos à estaca zero... eita, vida complexa!

Outro motivo que dificulta sobremaneira a elaboração deste texto é o personagem principal desta obra, Jiro Hoshikori, engenheiro-chefe responsável pela criação de vários caças japoneses usados na 2ª Guerra Mundial, em especial os lendários Mitsubishi A6M Zero, que causaram enormes estragos nas tropas aliadas, além de serem tristemente famosos ao final da Guerra por terem sido usados nas operações dos pilotos "kamikazes". Houve muitos protestos ao longo da produção deste anime e após o seu lançamento, criticando Miyazaki e o Ghibli por retratarem alguém que, na opinião de muitas pessoas, deveria ser considerado um criminoso de guerra, já que suas criações causaram muito sofrimento, destruição e mortes, inclusive entre os próprios japoneses.

Nem comecei a resenha pra valer, e ainda preciso falar do 3º motivo de muita controvérsia em relação a "Vidas ao Vento": as licenças poéticas e artísticas exageradas em relação à vida real de Jiro Hoshikori. Falarei mais sobre isto ao longo da resenha, mas basta dizer que alguns eventos cruciais e super emocionantes da história, na verdade, nunca aconteceram. Quando parte da força destes eventos está justamente no fato de teoricamente terem acontecido na vida real, fica uma sensação meio desagradável de manipulação emocional descarada.

Enfim, como já foi mencionado acima, "Vidas ao Vento" é um relato ficcional da vida de Hoshikori, que inicialmente sonhava em ser piloto, mas nunca poderia conseguir isto em função de sua forte miopia. Apaixonado por aviões desde criança, Hoshikori lia revistas em inglês sobre aviação, usando o dicionário de seu irmão para conseguir entender o que estava escrito ali. Seu ídolo maior era Giovanni Caproni, um projetista de aviões italiano com o qual sonhava frequentemente e que agia, em seus sonhos, como um mentor espiritual do "jovem japonês".

A narrativa acompanha várias etapas da vida de Hoshikori, desde seu período de estudos como engenheiro aeronáutico na Universidade Imperial de Tóquio, passando pelo acidente de trem sofrido durante o impressionante terremoto de Kantô em 1923 que arrasou Tóquio, sua ascensão meteórica na indústria aeronáutica japonesa e todo o processo gradativo que culminou na criação de sua obra-prima, o famoso caça Zero. Considerado um verdadeiro gênio, Hoshikori possuía algumas características que, hoje em dia, provavelmente o colocariam dentro do espectro autista: interesse extremo por determinado assunto, capacidade incrível de concentração, um tom de voz meio monotônico e sem expressão, um certo desleixo com as obrigações sociais, entre outras coisas. Hideaki Anno, diretor de Evangelion, ficou a cargo da dublagem de Horikoshi, e apesar de muita gente ter execrado o seu trabalho, confesso ter gostado bastante do resultado: sua voz inexpressiva se encaixou como um luva na personalidade do protagonista.

Quem está acostumado ao estilo mais fantástico das obras de Miyazaki provavelmente estranhará a atmosfera totalmente realista de "Vidas ao Vento", além de seu ritmo lento. Os momentos de fantasia típicos de Miyazaki aparecem com força total nos sonhos de Hoshikori, e por estarem sempre ligados a aviões e vôos deslumbrantes, nos fazem lembrar imediatamente de grandes cenas aéreas em obras como "Laputa", "Nausicaä" e especialmente "Porco Rosso". Uma curiosidade: um dos aviões criados por Caproni chamava-se Ca.309 Ghibli, e certamente não foi à toa que Miyazaki escolheu este projetista como "mentor" de Hoshikori.


Mesmo em meio a tantas obras visualmente impecáveis do Ghibli, "Vidas ao Vento" se destaca como uma das mais impressionantes. Como em outras animações do estúdio, a atenção aos detalhes mais sutis de movimentação dos personagens beira a obsessão, e as cenas de vôo oferecem momentos de pura poesia visual. Mas nada se compara à estupenda cena do terremoto de Kantô, especialmente pelo contraste com a tranquilidade retratada poucos momentos antes, durante a viagem de trem, quando Horikoshi conhece Naoko Satomi, sobre a qual falarei mais à frente. Toda a sequência é um primor de execução e direção, e apesar do terremoto propriamente dito ser bem rápido, a tensão só aumenta em função do perigo iminente, resultante dos incêndios galopantes que se alastraram por Tóquio e Yokohama. Vale lembrar que mais de 140 mil pessoas morreram à época, especialmente por causa dos incêndios, desabamentos e de um "tsunami" que varreu a região.

Muitas vezes os tradutores arruínam o título de obras ao traduzi-las para o idioma local, mas tenho que admitir que "Vidas ao Vento" foi uma jogada de mestre, pois retrata perfeitamente o que se passa na obra. E o vento é um elemento crucial neste anime, estando sempre presente nos momentos-chave da narrativa, como se realmente brincasse e jogasse com aquelas vidas em cena, tão pequenas e, ao mesmo tempo, tão belas e humanas.

"Vidas ao Vento" é um filme para pessoas pacientes, que certamente se sentirão recompensadas com a bela jornada de Jiro Hoshikori, especialmente na área pessoal, e é aqui que duas das controvérsias citadas no início marcam presença.

Grande parte das críticas a "Vidas ao Vento" diz respeito à criação de um filme que homenageia uma pessoa responsável por máquinas destruidoras, retratando-o de forma muito positiva, quase hagiográfica. De certo modo, concordo parcialmente com estas críticas, já que Jiro Hoshikori é mostrado sempre como um pacifista, que gostaria apenas de criar aviões de passeio, mas cujo amor incondicional por estas máquinas voadoras o levou, de certo modo, a fazer um pacto com o diabo. Por mais que Horikoshi não quisesse tomar parte naquela guerra, é difícil imaginar que ele não soubesse o estrago e o sofrimento que suas criações causariam.

Tendo dito isto, não concordo com as críticas feitas à criação do filme em si. Seria como protestar contra a criação de um filme baseado na vida de J. Robert Oppenheimer por ter sido o "pai" da bomba atômica, ou de Andrei Sakharov por ter sido o pai da bomba H soviética, como se estas pessoas e suas criações se fundissem em uma coisa só e não houvesse toda uma vida, toda uma existência complexa ligada a cada uma delas. Caramba, se até Adolf Hitler foi retratado de forma mais humana em "A Queda", por que Jiro Horikoshi não mereceria esta chance? Humanizar um personagem histórico, por mais execrável que tenha sido, não significa minimizar sua responsabilidade mas, sim, mostrar que por trás daquela "persona", havia um ser humano que, pelos mais variados motivos, seguiu um rumo que a grande maioria talvez não seguisse.

A outra controvérsia que, para mim, prejudicou bem mais a apreciação final de "Vidas ao Vento", foi a introdução e/ou alteração de vários eventos em uma obra que, teoricamente, deveria ser menos ficcional e mais biográfica. Não vou entrar em muitos detalhes para evitar spoilers - e recomendo a leitura deste artigo em inglês para maiores detalhes: http://the-artifice.com/the-wind-rises-2013-fact-fiction/ - mas quando se sabe que todo e qualquer evento relacionado à personagem Naoko Satomi nunca aconteceu na vida real, sendo que ela sequer existiu, grande parte da emoção se esvai. Não acho obrigatório que uma obra baseada na realidade siga à risca o que aconteceu, mas no caso de "Vidas ao Vento", o que acontece entre Hoshikori e Satomi se torna tão pungente e emocionante justamente porque ficamos a imaginar como foi passar por tudo aqui na vida real. Se "Vidas ao Vento" fosse uma obra 100% ficcional, eu realmente não diria nada, mas sendo teoricamente uma biografia, senti que todos estes eventos foram inseridos apenas para manipular emocionalmente o espectador, sem a menor cerimônia.



Ainda assim, considero "Vidas ao Vento" uma das melhores obras de Miyazaki. Sei que muita gente se decepcionou, achando o anime maçante, enfadonho e piegas, mas pelo menos pra mim, foi muito bom ver uma obra um pouco mais realista de Miyazaki. "Princesa Mononoke" ainda é meu xodó máximo no universo de Miyazaki, mas "Vidas ao Vento" vem ali, coladinho, disputando o 2º lugar com "A Viagem de Chihiro" e "Meu Amigo Totoro".


Marcelo Reis


 

domingo, novembro 06, 2016

As Memórias de Marnie (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 06/11/2016

Alternativos: Omoide no Marnie, When Marnie Was There
Ano: 2014
Diretor: Hiromasa Yonebayashi
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 102 min
Gênero: Drama / Psicológico



Quem já brincou de "telefone sem fio", de preferência com várias pessoas ao mesmo tempo, sabe que a mensagem que chega ao final da corrente muitas vezes não tem absolutamente nada a ver com a mensagem original. De certa forma, foi mais ou menos a mesma coisa que aconteceu no início de agosto de 2014, no Japão, aproximadamente um ano depois de Hayao Miyazaki anunciar sua aposentadoria, desta vez definitiva. Quando Toshio Suzuki, ex-presidente do Ghibli, anunciou que o estúdio faria uma pausa temporária na produção de longas-metragens de animação, para reavaliar as diretrizes do estúdio após a aposentadoria de Miyazaki, o caos se instalou: em questão de minutos, como um vírus, espalhou-se pelo mundo a notícia apocalíptica de que o Studio Ghibli nunca mais produziria um filme. E por algum tempo, "As Memórias de Marnie", lançado em meados de julho de 2014, foi considerado o último filme a ser produzido pelo Studio Ghibli em todos os tempos.

"As Memórias de Marnie" é baseado no livro "When Marnie Was There", da autora inglesa Joan G. Robinson, escrito em 1967. No livro, a protagonista vive em Norfolk, Inglaterra, enquanto no anime ela reside na cidade de Sapporo, em Hokkaido. Mas pelo que conferi em alguns textos, apesar da mudança de ambientação da Inglaterra para o Japão, a essência do enredo foi mantida intacta.

Anna Sasaki é uma garota que, em suas próprias palavras, faz parte daqueles que vivem "fora do círculo": não tem amigos, tem dificuldades para se enturmar, e praticamente só encontra felicidade nos momentos em que pode se dedicar à sua grande paixão, que é desenhar. Anna perdeu os pais e a avó quando jovem e foi mandada a um orfanato, sendo adotada por um casal que a ama de verdade. Anna era uma criança alegre e interativa mas, por algum motivo, passou a ficar taciturna, distante e triste, e a ansiedade resultante disto passou a desencadear crises cada vez mais fortes de asma. Por esta razão, Yoriko, sua mãe adotiva, resolve mandá-la pra casa de parentes que vivem à beira-mar, na expectativa de que o ar puro e a calma do interior melhorem sua ansiedade e, por tabela, sua tristeza e sua asma.


Anna passa os dias convivendo educadamente com seus divertidos e compreensivos anfitriões, mas ansiosa para poder sair e desenhar as belas paisagens da região. Certo dia, um casarão abandonado e com fama de mal-assombrado, localizado à beira do pântano, chama sua atenção. Tudo parece morto e sem vida, mas Anna tem a impressão de ter visto luzes e pessoas por ali. O desenrolar dos fatos leva Anna a conhecer Marnie, uma garota linda e cheia de vida, e imediatamente surge uma atração forte entre as duas. Mas como Marnie poderia viver naquele casarão vazio e sem vida? E por que razão o local parecia renascer à noite? Seria Marnie apenas fruto da imaginação de Anna, ou algo aparentemente inexplicável estaria acontecendo?

Elogiar a qualidade técnica de um anime do Ghibli chega a ser redundância, mas o estúdio consegue novamente entregar uma obra absolutamente irrepreensível visualmente. Eu adoro animações produzidas em CGI, sou fã de carteirinha da Pixar, mas existe um algo a mais em animações tradicionais que é difícil de explicar. E a equipe do Ghibli é mestre em criar momentos que dão arrepios na gente: na perfeição dos movimentos quando Anna toma um tombaço enquanto corre; nas sutis mudanças de expressão facial da garota, mostrando o verdadeiro turbilhão de emoções que se encontram dentro dela; nos detalhes em cada personagem em cena durante um baile de gala no casarão.

O diretor Hiromasa Yonebayashi, que já havia feito um trabalho soberbo em seu filme de estréia, "O Mundo dos Pequeninos" (Karigurashi no Arrietty), repete a dose em "As Memórias de Marnie". Yonebayashi também cuidou do roteiro, ao lado de Keiko Niwa - responsável pelo roteiro de quase todas as obras mais recentes do Ghibli - e de Masashi Ando, este último acumulando ainda as funções nada desprezíveis de desenhista de personagens e diretor de animação. Não deve ter sido tarefa fácil adaptar uma obra ambientada na Inglaterra e com protagonistas inglesas para um país totalmente diferente como o Japão, sem deixar a narrativa vazia ou forçada, mas os três roteiristas adicionaram detalhes sutis (Anna com olhos que parecem de estrangeira, casarão que recebia estrangeiros no passado) que tornam a adaptação natural e bastante crível.

Yonebayashi ainda consegue manter o suspense o tempo todo em relação ao que está realmente acontecendo ao longo do relacionamento entre Anna e Marnie, jogando algumas pistas aqui e ali para ajudar o espectador a montar o quebra-cabeça. Quem for um pouquinho mais antenado conseguirá matar a charada antes da hora, mas mesmo que isto aconteça, não reduzirá em nada o impacto emocional da história. Interessante notar que tanto "Marnie" quanto "Divertida Mente", dois dos indicados ao Oscar 2016 de Melhor Longa-Metragem de Animação - sendo que o filme da Pixar foi o vencedor do prêmio - tratam dos sentimentos, emoções e alterações psicológicas da personagem principal, mas de formas totalmente distintas, e igualmente brilhantes.



Se "As Memórias de Marnie" fosse realmente o último filme do Ghibli, faria um excelente papel como obra de despedida deste estúdio mítico. É um anime emocionante na dose certa, com algumas pitadas de fantasia que não afetam negativamente o lado mais realista da narrativa. Possui personagens cativantes e muito bem construídas, e momentos memoráveis que ficarão na lembrança por muito tempo. Ainda bem que não será o último filme do Ghibli: um mundo sem novos animes do estúdio seria triste demais.


Marcelo Reis


 

sexta-feira, dezembro 12, 2014

O Mundo dos Pequeninos (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 12/12/2014

Alternativos: Karigurashi no Arrietty, The Secret World of Arrietty, The Borrower Arrietty
Ano: 2010
Diretor: Hiromasa Yonebayashi
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 95 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia



Hiromasa Yonebayashi faz parte da equipe do Studio Ghibli desde 1997, quando atuou como intervalador em "Princesa Mononoke". Após vários anos exercendo as funções de intervalador, animador e diretor de animação em várias obras do Ghibli, Yonebayashi foi informado de que assumiria a cadeira de diretor em "Karigurashi no Arrietty". Além de ter sido o primeiro animador do Ghibli a exercer a função de diretor, Yonebayashi tornou-se a pessoa mais jovem a dirigir um anime do estúdio. Responsabilidade pouca é bobagem. :)

"Karigurashi no Arrietty", chamado no Brasil de "O Mundo dos Pequeninos", é baseado no livro "The Borrowers", da autora inglesa de livros infantis Mary Norton. Para quem quiser conferir o livro, ele foi lançado no Brasil pela Martins Editora com o nome "Os Pequeninos Borrowers".

Sho, um garoto de 12 anos, vai passar alguns dias na bucólica casa da tia-avó Sadako, pois encontra-se debilitado devido a uma doença crônica e precisa de alguns momentos de descanso em um local sossegado. Ao chegar, enquanto vagava pelos jardins da casa, Sho tem a nítida impressão de ter visto uma minúscula garotinha correndo no meio das plantas. Seria aquilo uma alucinação, ou realmente seria possível a existência de pessoas de proporções tão minúsculas?

A vista de Sho não lhe pregou nenhuma peça: ele realmente vira Arrietty, uma garota de 14 anos que mora com os pais Pod e Homily no subsolo da casa de Sadako. Eles fazem parte de uma raça chamada de "Colhedores", seres minúsculos que moram escondidos nas casas de seres humanos e pegam "emprestado" os utensílios e suprimentos de que precisam para sobreviver. Uma das principais regras de vida dos Colhedores diz que eles nunca podem ser vistos por um humano: caso isto aconteça, para sua própria segurança, devem procurar imediatamente uma nova casa.

Arrietty não percebeu que o garoto a notara, pois estava mais preocupada em voltar para casa em segurança enquanto fugia de Niya, o gato da tia-avó de Sho. Por esta razão, nenhum sinal de alerta chegou a ser ligado entre a família da garota. Mas com a curiosidade de Sho em tentar descobrir se os pequeninos existem mesmo, aliada à tentação de Arrietty em saber um pouco mais sobre aquele humano xereta, é apenas questão de tempo até que a situação comece a se complicar para todos os envolvidos. E quando se tem em casa alguém como Haru, uma empregada um tanto insólita, a história pode tomar rumos totalmente imprevisíveis.

Acredito que muitos que estão lendo esta resenha já tenham assistido a "O Mundo dos Pequeninos" mas, ainda assim, preferi descrever o desenrolar dos fatos de forma meio vaga para evitar "spoilers". Mas como acredito que não tenham entrado nesta página para ler apenas uma sinopse, chega de falatório e vamos à resenha! :)

Não li o livro de Mary Norton, então realmente não tenho como dizer se o roteiro de Hayao Miyazaki e Keiko Niwa foi fiel à obra original. Algumas mudanças óbvias dizem respeito ao local onde ocorre a história - o livro se passa na Inglaterra, enquanto o anime se passa no Japão -, além de vários personagens que existem no livro mas que sequer são mencionados no anime. Mas sendo fiel ao livro ou não, o roteiro é enxuto sem ser apressado, permitindo que o anime tenha uma narrativa ao mesmo tempo empolgante e coesa. Confesso ter achado estranho algumas resenhas reclamando do ritmo arrastado de "O Mundo dos Pequeninos"... será que vimos o mesmo anime?


Como acontece em praticamente todas as obras do Ghibli, as personagens femininas são fortes e lutam por aquilo em que acreditam. Arrietty respeita os pais, preocupa-se em não causar nenhum problema à segurança da família, mas sente aquela pulsão irresistível de explorar o desconhecido por conta própria, mesmo que para isto precise se expor a riscos. Sadako, a tia-avó de Sho, tem um jeito calmo de falar, mas desde o início demonstra claramente estar disposta a ajudar o sobrinho-neto, tão carente de atenção em casa, após a separação dos pais que quase só pensam em trabalho. Homily, a mãe de Arrietty, tenta oferecer uma boa qualidade de vida à filha e ao marido Pod, mas tem alguns arroubos de pânico aqui e ali, preocupada com a segurança de todos. E Haru, do seu jeito maluco e meio psicopata, também tem uma tenacidade admirável em sua luta para provar que a casa está infestada com certos "pestinhas" de formato humano.

Do lado masculino, Pod tem um jeito calmo e de autoridade, transmitindo uma sensação de segurança de alguém que já passou por muita coisa para garantir a sobrevivência da família. Apesar de mais caladão, é palpável o amor e preocupação sinceros que sente pela esposa e pela filha. Quanto a Sho, apesar de doente e enfraquecido, não fica se lamentando pelos cantos pelo triste destino que talvez o aguarde, e descobre um novo fascínio pela vida com a possibilidade de confirmar a existência dos pequeninos.

Por estar suficientemente ocupado com as funções de diretor e criador de "storyboards", Hiromasa Yonebayashi não se envolveu com a animação propriamente dita - pelo menos não de forma oficial, já que aparentemente ele também atuou como intervalador e animador nesta obra. De toda maneira, desta vez a direção de animação ficou por conta de Megumi Kagawa - envolvida com Miyazaki e Isao Takahata desde os tempos do estúdio Topcast, quando foi produzido "Nausicaä" - , e Akihiko Yamashita, que também cuidou do desenho de personagens em "Arrietty", e participou no passado de obras tão díspares quanto "You're Under Arrest" e "A Lenda do Demônio". O trabalho de ambos é sensacional, como seria de se esperar em uma obra do Studio Ghibli, mas me arrisco a dizer que "Arrietty" talvez seja um dos animes mais belos do estúdio em relação ao visual, com uma atenção quase doentia aos detalhes de animação, especialmente quando o macrouniverso dos humanos se choca com o microuniverso dos Colhedores. Méritos também da direção de arte de Noboru Yoshida e Youji Takeshige, com a criação de cenários detalhados e criativos, em que cada rachadura na madeira ou prego na parede pode ser útil para o trabalho dos Colhedores. E o que dizer da magnífica casa de bonecas, com um nível assombroso de detalhes em cada incrustação na parede ou nos objetos de decoração? "Arrietty" é daquelas animações que dá vontade de ver e rever, só para curtir cada um destes momentos sublimes que o Ghibli adora nos proporcionar.

"Arriety" também se destaca no catálogo do Ghibli por ter sido o primeiro anime do estúdio cuja trilha sonora não foi composta por um artista nipônico. Cécile Corbel, uma cantora, harpista e compositora francesa, é fã de longa data do Studio Ghibli, e quando resolveu mandar seu álbum "SongBook vol. 2" para algumas pessoas que admirava, enviou uma cópia para o Ghibli junto a uma carta manuscrita. Por coincidência, o produtor Toshio Suzuki procurava uma trilha sonora com texturas celtas para usar em "Arrietty", e aquele CD acompanhado de uma carta manuscrita chamou sua atenção. Cécile deveria fazer apenas a canção-tema do anime mas, no fim das contas, acabou compondo toda a trilha sonora. Mais uma vez sou obrigado a discordar de algumas resenhas que criticaram a trilha de Cécile Corbel, dizendo que ela destoa do que se passa na tela. As emocionantes melodias celtas e orientais, aliadas à belíssima voz de Cécile, fugiram um pouco das trilhas mais grandiosas e orquestrais de Joe Hisaishi, combinando perfeitamente com o ambiente bucólico aqui representado.



"O Mundo dos Pequeninos" foi um imenso sucesso de público e crítica, se tornando a maior bilheteria no Japão em 2010, além de ser agraciado com o prêmio de "Animação do Ano" no 34º Japan Academy Prize Association. Hiromasa Yonebayashi correspondeu positivamente à expectativa nele depositada por Hayao Miyazaki, e voltou à cadeira de diretor em 2014 com "Omoide no Marnie". Mas voltando a "O Mundo dos Pequeninos", é mais um excelente anime no currículo invejável do Studio Ghibli, recomendado para adultos e crianças que nao cansam de se encantar com as obras fantásticas deste estúdio simplesmente genial.


Marcelo Reis


 

segunda-feira, novembro 24, 2014

Ponyo - Uma Amizade Que Veio do Mar (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/11/2014

Alternativos: Gake no Ue no Ponyo, Ponyo on the Cliff by the Sea
Ano: 2008
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 101 min
Gênero: Aventura / Magia / Fantasia



Após a recepção morna de público e crítica ao longa-metragem "Gedo Senki", com o qual seu filho Gorô Miyazaki estreou como diretor, Hayao Miyazaki voltou à ativa com este delicioso "Ponyo", provavelmente o longa-metragem mais infantil produzido pelo Studio Ghibli. Ainda que levemente inspirado no conto "A Pequena Sereia", de Hans Christian Andersen, "Ponyo" é uma criação original de Hayao Miyazaki, que assumiu ainda as funções de roteirista e diretor na produção deste anime. E como acontece com quase toda animação produzida pelo Studio Ghibli, "Ponyo" foi um sucesso arrasador nas bilheterias japonesas, além de ter vencido em várias categorias no Tokyo Anime Awards 2009 e no 32º Japan Academy Prize Association.

Uma peixinha dourada com cara de gente vive numa pequena redoma submarina ao lado do pai, um cientista-mago chamado Fujimoto, e suas várias irmãzinhas mais jovens e minúsculas. Brunhilde, a tal peixinha, adora dar umas escapadinhas da tal redoma e, montada nas costas de alguma água-viva, subir até a superfície para tomar um delicioso banho de sol.

Numa destas escapadelas, alguns acontecimentos acabam levando Brunhilde até a beira de um penhasco, no alto do qual moram o garoto Sousuke e sua mãe Lisa. Ao descer até a beira do mar para brincar na água com seu barquinho de brinquedo, Sousuke vê aquela manchinha avermelhada e aparentemente desmaiada na água... e deste encontro casual surge uma bela amizade entre o garoto e aquela peixinha um tanto estranha, agora chamada de Ponyo por Sousuke.

Em "A Pequena Sereia", a personagem-título quer se transformar em humana para poder viver ao lado de seu grande amor, mesmo correndo o risco de morrer no processo. Em "Ponyo" acontece mais ou menos o mesmo, ainda que o amor aqui seja algo mais pueril. No afã de se tornar humana para poder curtir a vida ao máximo ao lado de seu amigo Sousuke, Ponyo está disposta a tudo, mesmo que os efeitos decorrentes deste ato possam ser literalmente catastróficos.



Um anime do Ghibli é sempre garantia de deixar o espectador de queixo caído com o visual arrebatador, e "Ponyo" não é uma exceção. A sequência de abertura dura aproximadamente 5 minutos, e sem uma única linha de diálogo, mostra toda a riqueza e abundância de vida submarina; a redoma em que moram Fujimoto, Brunhilde e suas irmãs; a cumplicidade que reina entre elas; e a satisfação de Brunhilde ao sentir os primeiros raios de sol. Tudo isto, claro, com aquela perfeição e complexidade visual que se tornaram marcas registradas do Ghibli.

Mas não é apenas nas imagens grandiosas que o Studio Ghibli impressiona - e grandiosidade é o que o não falta neste anime, em especial durante certos eventos ligados a tempestades. Pessoalmente, o que mais me marca nas animações do Ghibli é a atenção aos detalhes mais sutis. Por exemplo, quando Sousuke se encontra pela 1ª vez com Brunhilde/Ponyo, toda a movimentação do garoto é sublime: da expressão facial de curiosidade à retirada delicada dos sapatos dos pés antes de entrar na água, é tudo tão incrível que dá vontade de ver e rever a cena por várias vezes, só para pegar as sutilezas em cada detalhe. Um outro momento ocorre durante uma fortíssima tempestade (mais um show de animação, por sinal), e Lisa e Sousuke estão pegando o carro para voltar para casa. Na hora em que a chuva cai nos vidros, a animação, os efeitos sonoros... é tudo tão incrível que até sentimos o peso da água sobre o carro. Senti meus olhos brilhando na hora, o queixo caindo, a baba escorrendo e aquele "uau..." saindo quase num sussurro. :)

Hayao Miyazaki conta com seus habituais parceiros do Ghibli nesta produção. Joe Hisaishi cria mais uma excelente trilha sonora, alternando temas mais fortes e sombrios com outros mais alegres e festivos, inclusive prestando uma homenagem à "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner - o nome Brunhilde sendo uma clara alusão à sua ópera "O Anel dos Nibelungos". Katsuya Kondo fica mais uma vez a cargo do desenho de personagens com aquelas características tipicamente "Ghiblianas", que passam a impressão de já termos visto aqueles traços anteriormente, mas com cada personagem possuindo algum detalhe que o diferencia claramente dos demais. Katsuya Kondo é ainda diretor de animação e, convenhamos, em se tratando do Studio Ghibli, desnecessário falar alguma coisa a mais, né?

Como em outras obras de Miyazaki, não há um vilão de verdade em "Ponyo". Há algumas mensagens espalhadas aqui e ali sobre a humanidade estar colocando em risco o planeta com a poluição e a sujeira, e até a intenção de determinado personagem de limpar o planeta dos seres humanos, para que a natureza possa tomar conta e devolver a Terra a seu esplendor de outrora. Mas nada de personagens que representem o mal supremo e que queiram destruir a Terra apenas por prazer e satisfação pessoais. E chega a ser engraçado ver a tranquilidade com que as pessoas encaram certos eventos cataclísmicos ao longo do anime: se trata de um anime infantil com elementos fantásticos, claro, mas é preciso ligar a "suspensão da descrença" em modo máximo em alguns momentos, pois é realmente muito difícil imaginar um comportamento tão calmo e ordeiro da população perante a situação em que se encontram.

Méritos ainda para Miyazaki por criar um roteiro que não apenas cativa o espectador desde o início mas, ainda, possui personagens carismáticos com os quais nos preocupamos de verdade. Os relacionamentos são sinceros e convincentes, e isto é vital para que "Ponyo" não caia na armadilha tão comum a vários longas-metragens de animação, que abusam do deslumbre visual e sonoro para ocultar defeitos claros no que mais importa, que é a história.



"Ponyo" é mais uma excelente obra do Studio Ghibli, ainda que, pessoalmente, eu o coloque um degrauzinho abaixo de outros animes infantis do estúdio, como "Kiki's Delivery Service" e "Meu Vizinho Totoro". Mas por se tratar do Ghibli, não é preciso pensar demais para saber que mesmo um anime, digamos, "imperfeito" do estúdio ainda é superior a praticamente 99% do que é produzido por aí.


Marcelo Reis