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sábado, março 04, 2023

Terror in Resonance (TV)

Alternativos: Zankyō no Terror, Zankyou no Terror
Ano: 2014
Diretor: Shinichiro Watanabe
Estúdio: MAPPA
País: Japão
Episódios: 11
Duração: 23 min
Gênero: Drama, Mistério, Suspense



Shinichiro Watanabe pode se gabar de nunca ter realizado uma obra ruim, pelo menos até o dia em que escrevo esta resenha. Algumas podem não ser tão geniais quanto Cowboy Bebop (e convenhamos, poucas obras realmente podem se comparar a Bebop), mas todas possuem alguma coisa que as distinguem da imensa massa de animes puramente comerciais e sem alma produzidos ano após ano.
A notícia de que Watanabe dirigiria "Terror in Resonance", ou "Zankyou no Terror", obra baseada num conceito original do próprio diretor, deixou os fãs de anime alvoroçados. Por estar programada para ser exibida no noitaminA, bloco da Fuji TV exibido às madrugadas no Japão e voltado ao público adulto, ficava no ar a possibilidade de que seria um anime mais sério e realista. E para aumentar ainda mais as expectativas, foi revelado que os dois protagonistas da série eram nada menos do que terroristas.

Em uma sequência inicial alucinante, uma cápsula de plutônio é roubada de uma Usina de Reprocessamento de Combustível Nuclear na cidade de Aomori, norte da ilha de Honshu, no Japão. Um dos ladrões ainda encontra tempo para pintar de vermelho no chão da usina, em letras garrafais, a palavra "VON".

Seis meses depois, os dois jovens responsáveis por este roubo adotam os nomes falsos Arata Kokonoe e Toji Hisami, e fingem que são estudantes transferidos para Tóquio. Entre si, eles se chamam apenas de Nine e Twelve, respectivamente. Nine é sério, calculista e racional, enquanto Twelve é alegre, efusivo e nada discreto. Não é à toa que Lisa Mishima, uma garota retraída que é salva por Twelve de uma tentativa de "bullying", diz que "seu sorriso parecia o sol num dia quente de verão", enquanto descreve Nine como alguém "com olhos de gelo".

Nine e Twelve planejam um grande atentado em Tóquio, o primeiro de vários, e Nine não entende o motivo pelo qual Twelve resolve se expor e salvar alguém tão comum e sem graça quanto Lisa Mishima. Twelve explica que os olhos de Lisa se parecem com os das crianças da instituição onde viviam. Nine tem pesadelos constantes que mostram algo como um campo de detenção em chamas, completamente destruído, enquanto ele e Twelve tentam fugir daquele inferno. Ambos conseguem escapar, mas uma garota de rosto indefinido infelizmente fica para trás e, aparentemente, morre em meio ao incêndio. Isto assombra Nine por toda a vida, e o comentário de Twelve deixa uma dúvida no ar: seria Lisa aquela criança que não conseguiram salvar?

Nine e Twelve se autodenominam "Sphinx 1" e "Sphinx 2" em vídeos na internet, nos quais avisam quando ocorrerá o próximo atentado. Para que ele não aconteça, é preciso que as autoridades desvendem os enigmas que deixam em cada vídeo e descubram a tempo o local onde foi plantada a bomba.

É quando começa um jogo de gato-e-rato entre os "Sphinx" e Kenjirou Shibazaki, ex-detetive conceituado da polícia metropolitana de Tóquio. Fã de palavras-cruzadas, xadrez e "shōgi" (um tipo de xadrez japonês), ele era conhecido como "Shibazaki Navalha" em função de sua mente afiada e rápida. Shibazaki caiu em desgraça por ter denunciado um esquema de corrupção que atingia diretamente a cúpula da polícia, e por esta razão foi rebaixado ao cargo de arquivista dentro do departamento. Mas Kurahashi, o chefe da polícia metropolitana, percebe que apenas Shibazaki será capaz de resolver os enigmas e, com isto, impedir que os atentados aconteçam.

Apesar de ser uma série de apenas 11 episódios, "Terror in Resonance" possui um enredo muito intrincado, com uma imensa riqueza de detalhes nos aspectos técnicos. As explicações sobre o modo de ação dos terroristas são convincentes, os atentados são muito bem planejados e, ao longo da história, há uma justificativa plausível para o fato de duas pessoas tão jovens serem tão inteligentes e bem preparadas. Ainda assim, o nível de preparação e conhecimento deles sobre tantos assuntos me parece bem exagerado.

O visual da série é incrível, em especial os cenários de fundo, muito realistas. As cenas após o primeiro atentado nos remetem imediatamente à queda do World Trade Center, e os detalhes mostrando toda a destruição impressionam. As cenas de ação possuem uma qualidade de animação impressionante, com uma ótima mescla entre 2D e 3D.

O desenho de personagens de Kazuto Nakazawa (El Hazard, Samurai Champloo) não só é muito expressivo mas, também, extremamente variado. Cada personagem, mesmo sendo apenas secundário, possui traços bem individualizados. Só é uma pena que, em alguns momentos, a qualidade do traço caia bastante. No episódio 3 em especial, há momentos em que o "chara" muda tanto que os personagens nem parecem mais os mesmos do início da série.


A trilha sonora, mais uma vez a cargo da fantástica Yoko Kanno (Cowboy Bebop, GITS-SAC), é um caso interessante. Sou fã de trilhas sonoras, e geralmente é uma das coisas que mais me chamam a atenção numa obra audiovisual. Mas em "Terror in Resonance", a trilha sonora é extremamente discreta, servindo como pano de fundo bem suave para as cenas. Aparentemente, Yoko Kanno se inspirou na banda islandesa de pós-rock Sigur Rós, cujo som busca mais a criação de sonoridades incomuns usando instrumentos típicos do rock. E verdade seja dita, a trilha funciona muito bem, sem ser invasiva mas dando o tom adequado ao que acontece na tela.

Além dos personagens principais já citados, temos ainda Mukasa, um arquivista rechonchudo e divertido que, acreditem se quiser, não aparece apenas como alívio cômico. Shibazaki tem um afeto e respeito sinceros por ele, e sempre aparece de surpresa na seção de arquivos, para ver se a memória prodigiosa de Mukasa pode lhe dar alguma dica para avançar no caso. Temos ainda Five, uma garota de olhos violetas que trabalha para o governo dos EUA e entra em cena quando o governo norte-americano resolve intervir no caso, temendo que o plutônio roubado possa ser usado em algum artefato nuclear. Five é como uma versão feminina de Nine, extremamente inteligente e calculista, mas com um quê de arrogância e desprezo pela vida alheia - definitivamente uma adversária à altura dos "Sphinx".

O embate entre os "Sphinx" e Shibazaki gira em torno do mito grego de Édipo Rei, que matou o rei Laio da cidade de Tebas sem saber que ele era seu pai, conseguiu resolver os enigmas da Esfinge que atacava a cidade e acabou se casando com Jocasta, viúva do antigo rei, sem saber que ela era sua mãe. Como o nome deixa bem claro, os "Sphinx" obviamente representam a Esfinge com seus enigmas, enquanto Shibazaki representa a figura de Édipo ao solucionar estes enigmas.

Muito do que acontece em "Terror in Resonance" está ligado a extremos. Nine e Twelve, por exemplo, são praticamente como Yin/Yang em relação ao comportamento mas, apesar disto, possuem um relacionamento muito legal de respeito e confiança totais. A questão do frio e do calor, tanto em relação à temperatura quanto ao afeto, também está muito presente. Nine e Twelve viveram numa instituição nas quais as crianças não tinham nomes, eram chamadas apenas por números, para não despertar nelas qualquer ideia ligada ao amor. Lisa foi abandonada pelo pai e é sufocada emocionalmente pela mãe, totalmente paranoica com a ideia de que a filha também possa abandoná-la. Shibazaki nasceu em Hiroshima, é um "hibakunisha", da 2ª geração dos filhos da bomba atômica, e adorava a companhia da avó quando criança, mas odiava o calor pois, com isto, os idosos sumiam das ruas e ele não podia mais desfrutar do afeto dela.

É interessante também avaliar a questão das cores em "Terror in Resonance". Se pegarmos as cores dos olhos dos personagens principais, por exemplo, veremos que tanto Nine quanto Shibazaki possuem olhos acinzentados tendendo ao preto. Enquanto o cinza está ligado à maturidade, sentimentos sombrios e à sensação de vazio, o preto representa a objetividade e remete ao luto e ao mistério. Twelve possui olhos castanho-claros, e apesar do marrom estar ligado a sensações desagradáveis, à preguiça e à decomposição, também é considerada a cor da segurança e do aconchego. Five possui olhos violetas, cor considerada rara e associada ao poder, à vaidade, à magia e à sexualidade pecaminosa.

Ainda em relação a este assunto, vale lembrar que Twelve tem sinestesia e vê cores nos sons. Em determinado momento, ele diz a Nine que a voz de Lisa é amarela, e que é raro ver um tom de voz com esta cor. O amarelo é a cor da alegria, do otimismo e, também, da falta de discernimento. Talvez isto explique o motivo de uma pessoa tão desastrada e com personalidade tão apagada quanto Lisa despertar alguma coisa em alguém tão fora de série quanto Twelve, que pode ter visto nela o potencial para se transformar em alguém especial e capaz de fazer do mundo um lugar melhor.

(Para mais detalhes sobre psicologia das cores: https://chiefofdesign.com.br/psicologia-das-cores/)

Tanto o roubo do plutônio quanto o passado das "crianças sem nome" estão diretamente ligados a um assunto abordado em "Terror in Resonance" que ganha cada vez mais força dentro do Japão: a insatisfação de grande parte da população e dos poderosos com a submissão e dependência do país em relação aos EUA após a rendição aos Aliados no final da 2ª Guerra Mundial. Muitos anseiam pela volta aos tempos de glória do passado, quando o Japão era uma potência militar temida por todos. Quando a personagem Five entra na história, representando os EUA que, teoricamente, vieram para "ajudar", esta dinâmica desbalanceada entre os dois países fica bem clara. Como a superpotência que é, os EUA mandam e desmandam, e estão se lixando para quaisquer danos e perdas humanas causados por suas ações, desde que consigam atingir seus objetivos. Não deixa de ser interessante comparar esta postura com as de Nine e Twelve que, apesar de terroristas, tomam todo o cuidado para causar muitos danos materiais em seus atentados, mas sem gerar nenhuma morte.

Ainda que seja uma série excepcional, "Terror in Resonance" possui alguns problemas. Como foi dito anteriormente, a capacidade quase sobrehumana de Nine e Twelve de realizarem coisas complexas e perigosas, ainda mais sendo tão jovens, destoa um pouco do realismo presente em toda a série. E a coisa fica ainda pior em relação a Five, que parece um computador humano ambulante e onisciente, observando mil coisas ao mesmo tempo e não perdendo um único detalhe de nada. E para quem dizia o tempo todo que não queria apenas derrotar Nine mas, sim, humilhá-lo, Five revela em seu ato final uma motivação pífia e implausível para tudo o que havia feito até então. A série ainda cai na armadilha de retratar toda a polícia quase como um bando de idiotas, em especial no início da trama, de modo a destacar ainda mais a honestidade e a capacidade também exagerada de Shibazaki em solucionar os enigmas dos "Sphinx". E o que dizer da partida de xadrez dentro do aeroporto? A ideia talvez tenha parecido brilhante no papel mas, sinceramente, eu não conseguia parar de pensar no quanto tudo aquilo era ridículo.




Mas são problemas menores em relação ao conjunto da obra. Com um episódio final tenso e extremamente corajoso, que fecha a história com brilhantismo, "Terror in Resonance" é mais uma obra de alto nível de Shinichiro Watanabe, ainda com um currículo irretocável. Que continue assim por muito tempo.

sexta-feira, maio 05, 2017

Summer Wars (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 05/05/2017

Ano: 2009
Diretor: Mamoru Hosoda
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Duração: 114 min
Gênero: Aventura / Comédia / Drama / Sci-Fi



Logo após o sucesso estrondoso de "Toki o Kakeru Shoujo", era grande a expectativa para "Summer Wars", obra seguinte do diretor Mamoru Hosoda e baseada numa história original de sua autoria. Reunindo grande parte da equipe envolvida em "Toki Kake", como a roteirista Satoko Okudera e o desenhista de personagens Yoshiyuki Sadamoto, e com produção novamente a cargo da Madhouse, "Summer Wars" parecia extremamente promissor no papel... mas seria capaz de rivalizar com a quase perfeição atingida em "Toki Kake"?

OZ é a rede social mais popular do mundo. Acessível por computadores, celulares ou TV, o mundo virtual de OZ replica tudo o que existe no mundo real. Avatares permitem que o usuário tenha a aparência virtual que quiser, num mundo alegre e interativo onde se pode ter tudo. Governos e grandes empresas possuem representações em OZ, e cada vez mais as coisas no mundo real são afetadas e controladas pelo que ali acontece. Para manter a ordem e a segurança, além dos espíritos-guardiões de OZ chamados de John & Yoko, existem vários funcionários responsáveis pela manutenção constante da rede.

Os amigos Kenji e Takashi, estudantes do Ensino Médio no Colégio Kuonji, trabalham meio horário no mais baixo escalão de manutenção de OZ. Certo dia, durante o expediente, pinta a chance de fazerem um "bico" nas férias: Natsuki Shinohara, a garota mais popular da escola, precisa que alguém a acompanhe até sua cidade natal, Ueda, em Nagano, para a comemoração do aniversário de 90 anos da avó da garota... mas há apenas uma vaga. Kenji é selecionado, mas nunca poderia imaginar que aqueles quatro dias de viagem aparentemente tranquilos se transformariam numa aventura ensandecida, na qual ele estaria diretamente envolvido em eventos que aproximariam como nunca o mundo virtual do real, colocando em risco a sociedade e o mundo como os conhecemos.

"Summer Wars" já começa de forma arrasadora, ao mergulhar de cabeça dentro do mundo de OZ. O visual psicodélico com cores chapadas lembram muito o estilo de "Superflat Monogram", curta-metragem dirigido pelo próprio Hosoda, e a dimensão gigantesca daquele ambiente dá uma idéia muito clara da penetração daquela rede em todos os cantos do mundo. A atenção dada à necessidade de se mostrar um mundo virtual convincente e impactante foi grande a ponto da Madhouse praticamente usar uma equipe à parte apenas na criação deste universo.

É interessante notar como "Summer Wars" foi profético ao mostrar o surgimento de uma rede social dominante sobre todas as outras. Este artigo em particular - http://www.tracto.com.br/qual-rede-social-e-mais-usada-no-mundo/ - demonstra como o Facebook virou realmente a rede dominante num espaço de tempo de apenas 3 anos. E muita coisa já mudou de lá pra cá, em especial com a forte prevalência também do Twitter e do Whatsapp entre a população.

Mamoru Hosoda conseguiu captar muito bem todo o conceito ligado às redes sociais, que geram um mundo ao mesmo tempo paralelo e interligado à realidade em que vivemos. Se por um lado é muito bom reencontrarmos amigos distantes, conhecermos pessoas novas e divulgarmos projetos pessoais com mais eficiência, existe também o problema dos "trolls", do bullying virtual, de reputações destruídas em segundos. E em relação à sociedade informatizada como um todo, há ainda o risco nada desprezível de problemas no mundo virtual causarem problemas muito reais no dia-a-dia das pessoas: se a tecnologia falha, é quase como se voltássemos à idade da pedra. E esta possibilidade de gerar caos e anarquia é um prato cheio e tentador para os terroristas virtuais.

Lendo tudo isto, pode-se ter a impressão de que "Summer Wars" é um anime que pega pesado em jargões tecnológicos, na linha de "Ghost in the Shell", mas é justamente o contrário. "Summer Wars" é uma obra de narrativa ligeira, com um excelente equilibrio entre humor, ação, drama e comédia. E apesar de tudo o que se passa em OZ ser fundamental no desenrolar do enredo, o que acontece no mundo real é igualmente importante e divertido, em grande parte graças ao sensacional clã Jinnouchi.

Explicando melhor e indo à parte mais humana do anime. A bisavó de Natsuki, Sakae, é a matriarca do clã Jinnouchi, descendente de uma linhagem de samurais que remonta à era Tokugawa. Os homens da família lutaram várias guerras para manter território, tendo inclusive enfrentado e vencido o exército bem mais poderoso de Tokugawa. O respeito ganho em função disto permitiu que o clã Jinnouchi tivesse excelentes relações com os mais altos escalões do governo japonês e dos grandes conglomerados do Japão. Mas não é nisto que o coitado do Kenji pensa ao chegar na enorme fortaleza dos Jinnouchi, vendo aquela família imensa, barulhenta e curiosa pra saber quem é aquele rapaz que acompanha Natsuki, com direito a perguntas indiscretas e comentários pra lá de indecorosos.

"Summer Wars" possui momentos hilários, até mesmo com o uso de SD (Super Deform), e apesar de manter este tom leve ao longo de toda a narrativa, aos poucos vão sendo adicionados detalhes que tornam o enredo realmente tenso e emocionante rumo ao final. Há alguns planos visuais e transições incríveis, com destaque absoluto para a cena em que a inteligência artificial que começa a dominar OZ assume proporções assustadoras: tudo flui com a mais absoluta perfeição, e eu só conseguia pensar em como deve ter sido incrível ver esta cena em especial no cinema.

Os personagens são ao mesmo tempo um ponto forte e fraco em "Summer Wars". Não há o que reclamar deles em termos visuais, já que o desenho de Yoshiyuki Sadamoto, com seus traços simples, mas extremamente expressivos e bem animados, é sempre uma delícia de se ver. E não dá pra reclamar também da personalidade de cada um, já que todos são plausíveis, importantes na história e bem delineados. O problema é que não há aquele personagem marcante que fica na memória. Falar em "Akira" é lembrar de Kaneda e Tetsuo; pensou em "Berserk", e já lembramos de Guts, Griffith e Caska; "DBZ" traz imediatamente à mente Goku, Gohan, Vegeta, Trunks, entre outros. "Summer Wars" termina, você curte o que viu, mas não se lembra particularmente de nenhum personagem. Se pensarmos em "Toki Kake", um dos motivos para o anime ser tão incrível e marcante é porque nos envolvemos profundamente com a história de Makoto, o que não acontece em "Summer Wars".

Outro detalhe que incomoda um pouco é o fato de absolutamente tudo na história estar direta ou indiretamente ligado ao clã Jinnouchi. Esta já seria uma situação bem implausível caso os eventos estivessem ligados apenas ao Japão, mas em se tratando de problemas graves em escala global, é realmente difícil de engolir que a salvação do planeta esteja nas mãos de uma única família, por mais influente que ela seja.



"Summer Wars" tem algo que lembra "Jogos de Guerra", de John Badham, mas com uma abordagem muito mais leve. É uma animação que reflete bem a época em que vivemos, em que os "nerds" outrora desprezados agora ocupam posição de destaque nos mais variados campos. Serve ainda de alerta para o risco de se deixar tantas coisas vitais sujeitas a ataques via rede: basta ver o estrago causado pelo vírus Stuxnet nas centrais nucleares iranianas. Mas, acima de tudo, "Summer Wars" é um anime divertido e delicioso de se ver, mais uma excelente obra no currículo de Mamoru Hosoda, que caminha a passos largos para se tornar um dos grandes nomes da animação japonesa.


Marcelo Reis


segunda-feira, abril 24, 2017

Vidas ao Vento (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/04/2017

Alternativos: The Wind Rises, Kaze Tachinu
Ano: 2013
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 126 min
Gênero: Drama / Romance / Histórico



Acredito que esta será uma das resenhas mais difíceis de escrever, pelos mais variados motivos. Primeiro, porque apesar das declarações de aposentadoria de Hayao Miyazaki serem algo quase folclórico - primeiro, após dirigir "Princesa Mononoke", e depois, após terminar "A Viagem de Chihiro" - tudo leva a crer que "Vidas ao Vento" talvez seja realmente seu último filme. Se bem que esta matéria em inglês  já desmente tudo também, e voltamos à estaca zero... eita, vida complexa!

Outro motivo que dificulta sobremaneira a elaboração deste texto é o personagem principal desta obra, Jiro Hoshikori, engenheiro-chefe responsável pela criação de vários caças japoneses usados na 2ª Guerra Mundial, em especial os lendários Mitsubishi A6M Zero, que causaram enormes estragos nas tropas aliadas, além de serem tristemente famosos ao final da Guerra por terem sido usados nas operações dos pilotos "kamikazes". Houve muitos protestos ao longo da produção deste anime e após o seu lançamento, criticando Miyazaki e o Ghibli por retratarem alguém que, na opinião de muitas pessoas, deveria ser considerado um criminoso de guerra, já que suas criações causaram muito sofrimento, destruição e mortes, inclusive entre os próprios japoneses.

Nem comecei a resenha pra valer, e ainda preciso falar do 3º motivo de muita controvérsia em relação a "Vidas ao Vento": as licenças poéticas e artísticas exageradas em relação à vida real de Jiro Hoshikori. Falarei mais sobre isto ao longo da resenha, mas basta dizer que alguns eventos cruciais e super emocionantes da história, na verdade, nunca aconteceram. Quando parte da força destes eventos está justamente no fato de teoricamente terem acontecido na vida real, fica uma sensação meio desagradável de manipulação emocional descarada.

Enfim, como já foi mencionado acima, "Vidas ao Vento" é um relato ficcional da vida de Hoshikori, que inicialmente sonhava em ser piloto, mas nunca poderia conseguir isto em função de sua forte miopia. Apaixonado por aviões desde criança, Hoshikori lia revistas em inglês sobre aviação, usando o dicionário de seu irmão para conseguir entender o que estava escrito ali. Seu ídolo maior era Giovanni Caproni, um projetista de aviões italiano com o qual sonhava frequentemente e que agia, em seus sonhos, como um mentor espiritual do "jovem japonês".

A narrativa acompanha várias etapas da vida de Hoshikori, desde seu período de estudos como engenheiro aeronáutico na Universidade Imperial de Tóquio, passando pelo acidente de trem sofrido durante o impressionante terremoto de Kantô em 1923 que arrasou Tóquio, sua ascensão meteórica na indústria aeronáutica japonesa e todo o processo gradativo que culminou na criação de sua obra-prima, o famoso caça Zero. Considerado um verdadeiro gênio, Hoshikori possuía algumas características que, hoje em dia, provavelmente o colocariam dentro do espectro autista: interesse extremo por determinado assunto, capacidade incrível de concentração, um tom de voz meio monotônico e sem expressão, um certo desleixo com as obrigações sociais, entre outras coisas. Hideaki Anno, diretor de Evangelion, ficou a cargo da dublagem de Horikoshi, e apesar de muita gente ter execrado o seu trabalho, confesso ter gostado bastante do resultado: sua voz inexpressiva se encaixou como um luva na personalidade do protagonista.

Quem está acostumado ao estilo mais fantástico das obras de Miyazaki provavelmente estranhará a atmosfera totalmente realista de "Vidas ao Vento", além de seu ritmo lento. Os momentos de fantasia típicos de Miyazaki aparecem com força total nos sonhos de Hoshikori, e por estarem sempre ligados a aviões e vôos deslumbrantes, nos fazem lembrar imediatamente de grandes cenas aéreas em obras como "Laputa", "Nausicaä" e especialmente "Porco Rosso". Uma curiosidade: um dos aviões criados por Caproni chamava-se Ca.309 Ghibli, e certamente não foi à toa que Miyazaki escolheu este projetista como "mentor" de Hoshikori.


Mesmo em meio a tantas obras visualmente impecáveis do Ghibli, "Vidas ao Vento" se destaca como uma das mais impressionantes. Como em outras animações do estúdio, a atenção aos detalhes mais sutis de movimentação dos personagens beira a obsessão, e as cenas de vôo oferecem momentos de pura poesia visual. Mas nada se compara à estupenda cena do terremoto de Kantô, especialmente pelo contraste com a tranquilidade retratada poucos momentos antes, durante a viagem de trem, quando Horikoshi conhece Naoko Satomi, sobre a qual falarei mais à frente. Toda a sequência é um primor de execução e direção, e apesar do terremoto propriamente dito ser bem rápido, a tensão só aumenta em função do perigo iminente, resultante dos incêndios galopantes que se alastraram por Tóquio e Yokohama. Vale lembrar que mais de 140 mil pessoas morreram à época, especialmente por causa dos incêndios, desabamentos e de um "tsunami" que varreu a região.

Muitas vezes os tradutores arruínam o título de obras ao traduzi-las para o idioma local, mas tenho que admitir que "Vidas ao Vento" foi uma jogada de mestre, pois retrata perfeitamente o que se passa na obra. E o vento é um elemento crucial neste anime, estando sempre presente nos momentos-chave da narrativa, como se realmente brincasse e jogasse com aquelas vidas em cena, tão pequenas e, ao mesmo tempo, tão belas e humanas.

"Vidas ao Vento" é um filme para pessoas pacientes, que certamente se sentirão recompensadas com a bela jornada de Jiro Hoshikori, especialmente na área pessoal, e é aqui que duas das controvérsias citadas no início marcam presença.

Grande parte das críticas a "Vidas ao Vento" diz respeito à criação de um filme que homenageia uma pessoa responsável por máquinas destruidoras, retratando-o de forma muito positiva, quase hagiográfica. De certo modo, concordo parcialmente com estas críticas, já que Jiro Hoshikori é mostrado sempre como um pacifista, que gostaria apenas de criar aviões de passeio, mas cujo amor incondicional por estas máquinas voadoras o levou, de certo modo, a fazer um pacto com o diabo. Por mais que Horikoshi não quisesse tomar parte naquela guerra, é difícil imaginar que ele não soubesse o estrago e o sofrimento que suas criações causariam.

Tendo dito isto, não concordo com as críticas feitas à criação do filme em si. Seria como protestar contra a criação de um filme baseado na vida de J. Robert Oppenheimer por ter sido o "pai" da bomba atômica, ou de Andrei Sakharov por ter sido o pai da bomba H soviética, como se estas pessoas e suas criações se fundissem em uma coisa só e não houvesse toda uma vida, toda uma existência complexa ligada a cada uma delas. Caramba, se até Adolf Hitler foi retratado de forma mais humana em "A Queda", por que Jiro Horikoshi não mereceria esta chance? Humanizar um personagem histórico, por mais execrável que tenha sido, não significa minimizar sua responsabilidade mas, sim, mostrar que por trás daquela "persona", havia um ser humano que, pelos mais variados motivos, seguiu um rumo que a grande maioria talvez não seguisse.

A outra controvérsia que, para mim, prejudicou bem mais a apreciação final de "Vidas ao Vento", foi a introdução e/ou alteração de vários eventos em uma obra que, teoricamente, deveria ser menos ficcional e mais biográfica. Não vou entrar em muitos detalhes para evitar spoilers - e recomendo a leitura deste artigo em inglês para maiores detalhes: http://the-artifice.com/the-wind-rises-2013-fact-fiction/ - mas quando se sabe que todo e qualquer evento relacionado à personagem Naoko Satomi nunca aconteceu na vida real, sendo que ela sequer existiu, grande parte da emoção se esvai. Não acho obrigatório que uma obra baseada na realidade siga à risca o que aconteceu, mas no caso de "Vidas ao Vento", o que acontece entre Hoshikori e Satomi se torna tão pungente e emocionante justamente porque ficamos a imaginar como foi passar por tudo aqui na vida real. Se "Vidas ao Vento" fosse uma obra 100% ficcional, eu realmente não diria nada, mas sendo teoricamente uma biografia, senti que todos estes eventos foram inseridos apenas para manipular emocionalmente o espectador, sem a menor cerimônia.



Ainda assim, considero "Vidas ao Vento" uma das melhores obras de Miyazaki. Sei que muita gente se decepcionou, achando o anime maçante, enfadonho e piegas, mas pelo menos pra mim, foi muito bom ver uma obra um pouco mais realista de Miyazaki. "Princesa Mononoke" ainda é meu xodó máximo no universo de Miyazaki, mas "Vidas ao Vento" vem ali, coladinho, disputando o 2º lugar com "A Viagem de Chihiro" e "Meu Amigo Totoro".


Marcelo Reis