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sexta-feira, maio 05, 2017

Summer Wars (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 05/05/2017

Ano: 2009
Diretor: Mamoru Hosoda
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Duração: 114 min
Gênero: Aventura / Comédia / Drama / Sci-Fi



Logo após o sucesso estrondoso de "Toki o Kakeru Shoujo", era grande a expectativa para "Summer Wars", obra seguinte do diretor Mamoru Hosoda e baseada numa história original de sua autoria. Reunindo grande parte da equipe envolvida em "Toki Kake", como a roteirista Satoko Okudera e o desenhista de personagens Yoshiyuki Sadamoto, e com produção novamente a cargo da Madhouse, "Summer Wars" parecia extremamente promissor no papel... mas seria capaz de rivalizar com a quase perfeição atingida em "Toki Kake"?

OZ é a rede social mais popular do mundo. Acessível por computadores, celulares ou TV, o mundo virtual de OZ replica tudo o que existe no mundo real. Avatares permitem que o usuário tenha a aparência virtual que quiser, num mundo alegre e interativo onde se pode ter tudo. Governos e grandes empresas possuem representações em OZ, e cada vez mais as coisas no mundo real são afetadas e controladas pelo que ali acontece. Para manter a ordem e a segurança, além dos espíritos-guardiões de OZ chamados de John & Yoko, existem vários funcionários responsáveis pela manutenção constante da rede.

Os amigos Kenji e Takashi, estudantes do Ensino Médio no Colégio Kuonji, trabalham meio horário no mais baixo escalão de manutenção de OZ. Certo dia, durante o expediente, pinta a chance de fazerem um "bico" nas férias: Natsuki Shinohara, a garota mais popular da escola, precisa que alguém a acompanhe até sua cidade natal, Ueda, em Nagano, para a comemoração do aniversário de 90 anos da avó da garota... mas há apenas uma vaga. Kenji é selecionado, mas nunca poderia imaginar que aqueles quatro dias de viagem aparentemente tranquilos se transformariam numa aventura ensandecida, na qual ele estaria diretamente envolvido em eventos que aproximariam como nunca o mundo virtual do real, colocando em risco a sociedade e o mundo como os conhecemos.

"Summer Wars" já começa de forma arrasadora, ao mergulhar de cabeça dentro do mundo de OZ. O visual psicodélico com cores chapadas lembram muito o estilo de "Superflat Monogram", curta-metragem dirigido pelo próprio Hosoda, e a dimensão gigantesca daquele ambiente dá uma idéia muito clara da penetração daquela rede em todos os cantos do mundo. A atenção dada à necessidade de se mostrar um mundo virtual convincente e impactante foi grande a ponto da Madhouse praticamente usar uma equipe à parte apenas na criação deste universo.

É interessante notar como "Summer Wars" foi profético ao mostrar o surgimento de uma rede social dominante sobre todas as outras. Este artigo em particular - http://www.tracto.com.br/qual-rede-social-e-mais-usada-no-mundo/ - demonstra como o Facebook virou realmente a rede dominante num espaço de tempo de apenas 3 anos. E muita coisa já mudou de lá pra cá, em especial com a forte prevalência também do Twitter e do Whatsapp entre a população.

Mamoru Hosoda conseguiu captar muito bem todo o conceito ligado às redes sociais, que geram um mundo ao mesmo tempo paralelo e interligado à realidade em que vivemos. Se por um lado é muito bom reencontrarmos amigos distantes, conhecermos pessoas novas e divulgarmos projetos pessoais com mais eficiência, existe também o problema dos "trolls", do bullying virtual, de reputações destruídas em segundos. E em relação à sociedade informatizada como um todo, há ainda o risco nada desprezível de problemas no mundo virtual causarem problemas muito reais no dia-a-dia das pessoas: se a tecnologia falha, é quase como se voltássemos à idade da pedra. E esta possibilidade de gerar caos e anarquia é um prato cheio e tentador para os terroristas virtuais.

Lendo tudo isto, pode-se ter a impressão de que "Summer Wars" é um anime que pega pesado em jargões tecnológicos, na linha de "Ghost in the Shell", mas é justamente o contrário. "Summer Wars" é uma obra de narrativa ligeira, com um excelente equilibrio entre humor, ação, drama e comédia. E apesar de tudo o que se passa em OZ ser fundamental no desenrolar do enredo, o que acontece no mundo real é igualmente importante e divertido, em grande parte graças ao sensacional clã Jinnouchi.

Explicando melhor e indo à parte mais humana do anime. A bisavó de Natsuki, Sakae, é a matriarca do clã Jinnouchi, descendente de uma linhagem de samurais que remonta à era Tokugawa. Os homens da família lutaram várias guerras para manter território, tendo inclusive enfrentado e vencido o exército bem mais poderoso de Tokugawa. O respeito ganho em função disto permitiu que o clã Jinnouchi tivesse excelentes relações com os mais altos escalões do governo japonês e dos grandes conglomerados do Japão. Mas não é nisto que o coitado do Kenji pensa ao chegar na enorme fortaleza dos Jinnouchi, vendo aquela família imensa, barulhenta e curiosa pra saber quem é aquele rapaz que acompanha Natsuki, com direito a perguntas indiscretas e comentários pra lá de indecorosos.

"Summer Wars" possui momentos hilários, até mesmo com o uso de SD (Super Deform), e apesar de manter este tom leve ao longo de toda a narrativa, aos poucos vão sendo adicionados detalhes que tornam o enredo realmente tenso e emocionante rumo ao final. Há alguns planos visuais e transições incríveis, com destaque absoluto para a cena em que a inteligência artificial que começa a dominar OZ assume proporções assustadoras: tudo flui com a mais absoluta perfeição, e eu só conseguia pensar em como deve ter sido incrível ver esta cena em especial no cinema.

Os personagens são ao mesmo tempo um ponto forte e fraco em "Summer Wars". Não há o que reclamar deles em termos visuais, já que o desenho de Yoshiyuki Sadamoto, com seus traços simples, mas extremamente expressivos e bem animados, é sempre uma delícia de se ver. E não dá pra reclamar também da personalidade de cada um, já que todos são plausíveis, importantes na história e bem delineados. O problema é que não há aquele personagem marcante que fica na memória. Falar em "Akira" é lembrar de Kaneda e Tetsuo; pensou em "Berserk", e já lembramos de Guts, Griffith e Caska; "DBZ" traz imediatamente à mente Goku, Gohan, Vegeta, Trunks, entre outros. "Summer Wars" termina, você curte o que viu, mas não se lembra particularmente de nenhum personagem. Se pensarmos em "Toki Kake", um dos motivos para o anime ser tão incrível e marcante é porque nos envolvemos profundamente com a história de Makoto, o que não acontece em "Summer Wars".

Outro detalhe que incomoda um pouco é o fato de absolutamente tudo na história estar direta ou indiretamente ligado ao clã Jinnouchi. Esta já seria uma situação bem implausível caso os eventos estivessem ligados apenas ao Japão, mas em se tratando de problemas graves em escala global, é realmente difícil de engolir que a salvação do planeta esteja nas mãos de uma única família, por mais influente que ela seja.



"Summer Wars" tem algo que lembra "Jogos de Guerra", de John Badham, mas com uma abordagem muito mais leve. É uma animação que reflete bem a época em que vivemos, em que os "nerds" outrora desprezados agora ocupam posição de destaque nos mais variados campos. Serve ainda de alerta para o risco de se deixar tantas coisas vitais sujeitas a ataques via rede: basta ver o estrago causado pelo vírus Stuxnet nas centrais nucleares iranianas. Mas, acima de tudo, "Summer Wars" é um anime divertido e delicioso de se ver, mais uma excelente obra no currículo de Mamoru Hosoda, que caminha a passos largos para se tornar um dos grandes nomes da animação japonesa.


Marcelo Reis


quarta-feira, janeiro 28, 2015

Mai Mai Miracle (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 28/01/2015

Alternativos: Mai Mai Shinko to Sennen no Mahou, A Magia do Tempo
Ano: 2009
Diretor: Sunao Katabuchi
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 95 min
Gênero: Drama / Magia / Slice-of-Life



Imagino que cada pessoa siga alguns critérios bem particulares na hora de escolher algum anime para assistir. Eu, por exemplo, tenho uma queda especial por alguns estúdios (Ghibli, Madhouse, Studio 4ºC), diretores (Hayao Miyazaki, Isao Takahata, Mamoru Hosoda, Satoshi Kon [RIP]), roteiristas (Chiaki Konaka, Keiko Nobumoto, Dai Satou, Mamoru Oshii) e gêneros / estilos (cyberpunk, drama, sci-fi, slice of life), além de obras obscuras que quase ninguém conhece.

Ao pesquisar alguns longas-metragens da Madhouse para assistir e resenhar, "Mai Mai Miracle" apareceu na minha frente e me chamou a atenção por vários motivos. Havia sido dirigido e roteirizado por Sunao Katabuchi, que realizou um excelente trabalho nestas mesmas funções em toda a série "Black Lagoon" e em "Princess Arete". Sua temática "slice-of-life" com elementos de drama e fantasia foi comparada a duas obras do Ghibli que adoro: "Tonari no Totoro" e "Omohide Poro Poro".

Madhouse + diretor e roteirista interessante + estilo que me agrada + cara de obras do Ghibli = Oba, este anime é bom! :)

"Mai Mai Miracle" é uma versão romantizada da autobiografia da autora Nobuko Takagi e se passa 10 anos após o final da II Guerra Mundial. Shinko Aoki é uma pré-adolescente criativa, curiosa e muito energética que vive na cidade de Hôfu, na província de Yamaguchi, localizada na região sudoeste de Honshu, maior ilha do Japão. Como o pai passa muito tempo viajando a trabalho, Shinko mora com a mãe, os avós e a irmã mais nova, Mitsuko, na região rural, onde cultivam trigo. Segundo o seu avô, um ex-professor que sempre tem histórias interessantes para contar, as pessoas vivem praticamente da mesma maneira na região há mais de mil anos. E para alguém com tanta sede de informação como Shinko, nada melhor do que ter a imaginação super ativa o tempo todo, para tornar mais interessante aquela região que aparentemente parou no tempo.

Mas "imaginação" é pouco para explicar a mente de Shinko. Segundo ela, a culpa é de seu redemoinho revolto na franja, carinhosamente chamado por ela de "mai mai", que parece captar ondas de algum lugar, ativando sua criatividade e mesclando realidade e fantasia de forma natural. Shinko tem um prazer especial em imaginar como era a região no passado distante, quando a cidade chamava-se Kokuga, era a capital da província de Suou e o mar ocupava grande parte do território - os japoneses expulsaram o mar daquela área mais ou menos como os holandeses fizeram em seu país. Shinko tem uma curiosidade a respeito de uma certa princesa que parece ter vivido à época, e fica sempre uma dúvida no ar se tudo aquilo é apenas fruto da imaginação de Shinko, ou se existe alguma comunicação entre as garotas que transcende o tempo.

A chegada de uma garota chamada Kiiko Shimazu causa uma reviravolta na vida de Shinko. Kiiko acabou de chegar de Tóquio, acompanhando seu pai, o Dr. Shimazu, que trabalhará como médico numa importante fábrica da região. Com suas roupas elegantes, movimentos delicados timidez extrema e semblante triste, Kiiko parece totalmente deslocada, especialmente dentro da sala de aula. Mas para alguém curiosa como Shinko, um espécime diferente daqueles é interessante demais para passar despercebido, e uma intensa amizade começa a se desenhar.


Apesar de "Mai Mai Miracle" realmente ter muita coisa que lembra "Totoro" (amigos imaginários) e "Omohide Poro Poro" (vida simples na área rural do Japão), o pessoal da Madhouse não tentou simplesmente copiar o que o Ghibli faz tão bem. O clima é muito parecido, mas há um toque todo especial da Madhouse em todos os cantos, desde o estilo do traço usado nas paisagens e nas construções até o desenho de personagens. Aqui, sim, a palavra "homenagem" se encaixaria muito bem, já que muitas vezes ela é apenas um eufemismo usado para atenuar um plágio descarado.

Ainda que não seja tão incrível tecnicamente quanto as obras supracitadas do Ghibli, "Mai Mai Miracle" conta com a competência habitual dos membros da Madhouse, com uma fusão incrível de 2D com 3D e tomadas de câmera muito criativas e funcionais, o que é muito importante, já que é fácil cair na tentação de criar firulas visuais só para aparecer.

A atenção aos detalhes é fundamental para mostrar com clareza a diferença dos mundos em que vivem Shinko e Kiiko. A primeira tem uma vida feliz com a família numa casa simples, com patos e galinhas no quintal e brinquedinhos que acompanhavam os caramelos Glico. Kiiko, por outro lado, vive numa casa elegante cheia de objetos caros e chiques, com geladeira a gás (uma super novidade à época), mas sente um vazio emocional após a morte recente da mãe. E tudo isto transparece nas sutilezas de comportamento e movimento de cada uma das garotas, que aos poucos afetam sobremaneira a forma como cada uma enxerga e lida com o mundo.

A belíssima trilha sonora sinfônica de Minako Obata e Shusei Murai, este último compositor da também excelente trilha de "The Tibetan Dog", é fortemente centrada em violoncelos, que com sua sonoridade característica, dão um tom levemente melancólico às cenas mais dramáticas. O uso de "pizzicatos" e suaves vozes femininas em cenas mais alegres também funcionam que é uma beleza.

O roteiro de "Mai Mai Miracle" utiliza o humor com inteligência em momentos dramáticos, fazendo com que algumas situações potencialmente piegas fluam com naturalidade, sem martelar a tristeza na cabeça do espectador. Há um momento que demonstra isto de forma particularmente brilhante, ligado a garrafinhas de chocolate e uma explicação sobre a função do óleo de rícino. E há outros momentos deliciosos que remetem à famosa cena do abacaxi em "Omohide Poro Poro", mostrando o quanto os pequenos prazeres da vida é que realmente marcam, como construir uma represa no riacho, entrar de penetra no cinema ou realizar missões "perigosas" com o incomparável "Esquadrão Ou Vai, ou Racha". :)

"Mai Mai Miracle" dá apenas uma pequena desandada no terço final. Há um arco envolvendo um peixinho-dourado que se alonga bem mais do que deveria, atrapalhando um pouco o ritmo perfeito da animação até então. Há ainda a história do taciturno Tatsuyoshi, um garoto de bom coração mas que parece se sentir meio diminuído na presença do pai, um policial virtuoso no kendô e considerado um verdadeiro herói na região. Estes dois arcos que se entrelaçam são um pouco arrastados, tendem ao dramalhão e tiram um pouco o foco da excelente história de amizade entre Shinko e Kiiko.



Mas é um defeito menor. "Mai Mai Miracle" teria sido praticamente perfeito se não fosse este probleminha rumo ao final. É uma excelente animação com a cara do Ghibli, mas com várias sutilezas que deixam bem claro se tratar de mais uma obra fenomenal deste fantástico estúdio chamado Madhouse. Se você curte um bom "slice-of-life", pode assistir sem medo de ser feliz. ;)


Marcelo Reis


terça-feira, dezembro 16, 2014

The Tibetan Dog (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 16/12/2014

Alternativos: Tibet Inu Monogatari: Kin'iro no Dao Jie
Ano: 2011
Diretor: Masayuki Kojima
Estúdio: Madhouse
País: China / Japão
Episódios: 1
Duração: 90 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério



Baseado no livro "Zàng'áo" (Tibetan Mastiff), best-seller chinês de autoria de Yang Zhi Jun, "The Tibetan Dog" é uma co-produção entre China e Japão. Sendo mais específico, o financiamento foi todo chinês (China Film Group Corporation), mas a produção propriamente dita é inteiramente japonesa, cortesia de nossa velha conhecida Madhouse. Os diálogos originais foram gravados em mandarim, o que dá um pouco mais de autenticidade à obra, uma vez que ela se passa no Tibete. Convenhamos, teria sido muito mais interessante se os diálogos fossem em tibetano, mas seria pedir demais, ainda mais sendo uma obra financiada pela China.

A história é narrada por um senhor de meia-idade, Tenzing, que conta fatos ocorridos em sua própria infância. Tenzing saiu da cidade de Xi'an aos 10 anos de idade, após o falecimento de sua mãe chinesa, e foi procurar seu pai, Lhakpa, no Tibete. Lhakpa é de origem tibetana, conheceu a mãe de Tenzing na Faculdade de Medicina, e após se formarem como médicos e se casarem, foram morar no Tibete, pois ele queria usar seus conhecimentos médicos para ajudar a população carente da região - por atendê-los de graça, Lhakpa ganha a vida como pastor de ovelhas. Mas a mãe de Tenzing não se adaptou ao ambiente e ao estilo de vida tibetano, e acabou indo embora e levando o garoto ainda bebê consigo. Por esta razão, Tenzing mal conheceu o pai.

Tenzing não tem motivos para comemorar. Perdeu a mãe que tanto amava, o pai recebeu-o em sua tenda de forma fria e distante, a adaptação aos costumes e ao ambiente tão diferentes não tem sido nada fácil e, pra piorar, os garotos da região praticam "bullying" com ele. Ainda que Sonam, amigo de seu pai, e o cãozinho Wala tentem ajudá-lo a se adaptar e curtir a nova vida, Tenzing sofre com a distância do pai, do qual guarda rancor por ele não ter ficado ao lado da mãe quando ela mais precisava de apoio. Mas a entrada em cena de um belo e desconhecido mastim tibetano, de pelagem espessa e dourada, pode mudar completamente a vida do garoto e, por tabela, de todos os habitantes da região.

"The Tibetan Dog" poderia ter se tornado uma animação melodramática ou excessivamente edificante mas, felizmente, há um ótimo equilíbrio entre drama, ação e até um pouco de suspense. A relação que surge entre Tenzing e o mastim dourado evolui com naturalidade, já que ambos são forasteiros naquela aldeia; os problemas de relacionamento entre pai e filho são retratados de forma realista - Tenzing quer aproximar-se e saber mais sobre seu passado, enquanto Lhakpa mantém distância, pois quer que o filho seja forte e independente; a dor de Tenzing neste duro processo de adaptação à nova realidade em meio ao luto pela morte da mãe é palpável e convincente, e a flauta que recebeu de presente da mãe aparece em um momento particularmente tocante do filme, representando muito bem o amor e compreensão que havia entre ambos.


Ainda que exista uma certa aura Disney aqui e ali no tocante à amizade entre Tenzing e o mastim tibetano, chamado pelo garoto de Doogee (ou Do-khyi em tibetano), e também em relação ao cãozinho Wala, que serve como alívio cômico em várias partes da animação, "The Tibetan Dog" possui um clima mais pesado e adulto. Pessoas e animais começam a aparecer mortos pela ação de um assassino misterioso, que parece matar pelo simples prazer de fazê-lo. Estas mortes levam a boatos sobre a existência de um demônio assassino, e como o mastim dourado surgiu na região mais ou menos no mesmo período, as suspeitas começam a cair sobre ele.

Além de Tenzing, Lhakpa e Doogee, outros personagens importantes são Medhram, bela aprendiz de Lhakpa que quer pegar as melhores características existentes nas medicinas ocidental e chinesa, atua como importante apoio emocional a Tenzing; Amala, uma velha trambiqueira que vende poções inúteis aos aldeões, se acha a dona de pedaço mas morre de medo de Lhakpa; Norbu, neto de Amala, nutre grande curiosidade por Tenzing desde sua chegada, participa a contragosto de uma sessão de "bullying" contra o garoto mas acaba tornando-se seu amigo; Gyalo, o implacável líder de um bando de ladrões da região, possui um trato de não-agressão mútua com os habitantes da aldeia, mas começa a perder a sanidade quando sente de perto a dor causada pelo "demônio assassino"; e Tering, ancião e líder espiritual da aldeia, possui grande ascendência moral sobre todos na região, inclusive sobre a gangue de Gyalo.

Ainda que Doogee seja o principal mastim tibetano nesta animação, a raça como um todo é fundamental na narrativa. Os mastins tibetanos são cães desconfiados, que custam a se abrir para outras pessoas. Fortíssimos, defendem rebanhos e pessoas, mas os machos disputam fortemente o território com embates violentos e sangrentos. Para sobreviver numa região tão inóspita, com ar rarefeito e mudanças climáticas radicais, só mesmo uma raça tão especial quanto esta. E a Madhouse fez um trabalho de animação brilhante para representá-la à altura, tendo inclusive um diretor de animação específico para os animais: um ótimo trabalho de Kazutaka Ozaki.

Se alguém notar semelhanças entre o desenho de personagens em "The Tibetan Dog" e obras como "Monster" e "Master Keaton", não é mera coincidência, ja que Naoki Urasawa é responsável por esta função nesta animação, ao lado de Shigeru Fujita, também presente nos animes de "Monster" e "Master Keaton". E as ligações com estas duas obras não param por aqui, já que o diretor Masayuki Kojima também dirigiu os dois animes supracitados. 

O traço de Urasawa, como sempre, é excepcional, com personagens de feições muito diferentes entre si e uma expressividade impressionante no olhar. Mas se alguém merece muito crédito pelo visual estonteante de "The Tibetan Dog", esta pessoa é Yuji Ikeda. O diretor de arte em obras visualmente incríveis como "Fushigi Yuugi" e "The Heroic Legend of Arslan" conseguiu retratar o Tibete em todo o seu esplendor, tanto nas cenas ensolaradas em meio às pradarias quanto nos momentos agoniantes entre os grandiosos picos do Himalaia. Tudo isto, aliado à bela trilha sonora de Shusei Murai (Silver Spoon 1 e 2) repleta de temas orquestrais e percussões típicas tibetanas, torna "The Tibetan Dog" um verdadeiro banquete sensorial.



Sinto uma certa tristeza ao saber que "The Tibetan Dog" foi um fracasso terrível de bilheteria na China - com um custo de aproximadamente US$9 milhões, mal arrecadou US$200 mil nos cinemas chineses. É uma animação de excelente qualidade técnica, com uma narrativa empolgante e nada piegas sobre amizade e amadurecimento, personagens realistas e bem desenvolvidos e um ótimo equilíbrio entre ação e drama.


Marcelo Reis


 

sexta-feira, outubro 24, 2014

Redline (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/10/2014

Ano: 2009
Diretor: Takeshi Koike
Estúdio: Madhouse
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 101 min
Gênero: Corrida / Sci-Fi / Ação


Uma coisa é inegável em relação às obras de Takeshi Koike: elas possuem um estilo visual único. Tanto "Trava" quanto "World Record" (este último faz parte de "Animatrix") apresentam características típicas dos animes de Koike: cores berrantes e contrastantes, traços estilizados e distorcidos, tomadas de câmera incomuns para aumentar a sensação de estranheza, e uma animação de cair o queixo. "Redline", longa-metagem de 2009, eleva estas caracteríticas "koikeanas" à enésima potência.

Num futuro distante, no qual os tradicionais carros com rodas foram substituídos por veículos com motores antigravitacionais, apenas alguns "doidos varridos" continuam a correr à moda antiga. Os pilotos são verdadeiras celebridades, e muito dinheiro circula neste meio, inclusive com a participação de um certo "sindicato" que manipula os resultados para faturar alto com apostas.

Entre todas as corridas, Redline é de longe a mais famosa e mortal. Ela acontece apenas a cada 5 anos, num local-surpresa revelado poucos dias antes da largada. Redline é o objetivo máximo de todos os pilotos, que fazem de tudo para conseguir uma vaga entre os oito carros participantes. Nesta corrida, qualquer coisa vale: não importa o que aconteça, quem cruzar a linha de chegada em primeiro, vence.

JP, um cara boa-pinta e com um topete monumental, é também chamado de "Adorável JP", pois faz questão absoluta de correr jogando limpo, sem utilizar bombas ou algo do tipo. Com seu carro amarelo super turbinado e modificado, que lembra um Ford Mustang da década de 70 usado nas corridas da Trans-Am Series, JP possui o rabo preso com o tal "sindicato", já que seu mecânico Frisbee está ligado ao esquema de apostas: por esta razão, ele não pode vencer corridas... e o sonho de participar da Redline parece cada vez mais distante.

Mas a escolha de Roboworld como sede da próxima Redline, um planeta abertamente hostil ao universo das corridas, pode mudar todo este cenário. Roboworld alega ser uma sociedade pura que repudia a sujeira ligada às corridas, mas seu motivo real para esta hostilidade é outro: proteger suas instalações militares secretas das câmeras onipresentes que acompanham os veículos em suas loucuras.

Se eu pudesse resumir "Redline" em duas palavras, elas seriam: totalmente possesso. ^_^   É um anime que não perde o ritmo nem mesmo em seus momentos mais calmos, e que é alucinante em praticamente 90% do tempo, desde o primeiro minuto. De cara chamam a atenção o traço detalhadíssimo, as cores psicodélicas, os ângulos de filmagem movidos a LSD e a animação tão fluida que dá vontade de chorar. É nestas horas que vemos como uma animação tradicional de qualidade tem o seu lugar. Na resenha de "Redline" no site THEM Anime, o autor comenta sobre os extras do DVD, onde é revelado que a produção da obra durou 7 anos, e foram utilizadas mais de 100 mil células desenhadas a mão. Não há absolutamente nada de CGI ao longo de toda a animação, o que é simplesmente inacreditável.


"Redline" conta com uma grande produção da Madhouse e toda a sua equipe, mas sua alma está basicamente ligada a duas pessoas. Uma delas, obviamente, é Takeshi Koike, que além de diretor, trabalhou como diretor de animação e foi um dos responsáveis pelo desenho de personagens, ao lado de Katsuhito Ishii, seu co-diretor em "Trava". E Ishii é a segunda peça-chave por trás de "Redline", pois criou o argumento da obra, foi um dos roteiristas e, ainda, seu diretor de som. Ufa! Vale lembrar que Katsuhito Ishii é um diretor de excelentes longas-metragens "live-action", como "Funky Forest" e "The Taste of Tea".

A diretora de arte Yuko Kobari (Texhnolyze) ajudou a criar um clima interessantíssimo em "Redline", pois toda a ambientação é uma mistura muito bem-feita de tecnologia em meio a paisagens típicas de um "western" americano. E o compositor James Shimoji compôs uma trilha sonora eclética, que vai da "dance music" ao clássico, passando pelo progressivo e outros estilos. Um belo trabalho que não tenta se sobrepor ao que está em cena mas, sim, trabalhar em harmonia com as imagens.

Não dá pra dizer que "Redline" tenha uma história incrível. É um típico anime de ação, com personagens que correm atrás de sonhos enquanto lutam com alguns fantasmas do passado. JP teve uma infância pobre, e acabou sendo inicialmente seduzido pelo glamour, fama e mulheres ligados ao mundo das corridas, até descobrir motivações muito mais sinceras para competir. Sonoshee McLaren, piloto linda e talentosa, sempre se interessou apenas por carros, nunca ligando muito para amigos ou namorados. Carrega um pingente no pescoço, presente do seu pai, que foi sua grande inspiração para ingressar nas corridas. E como deixar de mencionar Machine Head Tetsujin, capaz de literalmente se conectar a seu carro? Conhecido como "Sr. Redline", é o homem mais rápido da galáxia e vencedor da corrida por quatro vezes consecutivas. Há ainda o Coronel Volton, com sua sede doentia por poder e destruição; Frisbee, amigo e mecânico de JP há anos, mas com uma personalidade ambígua; e o hilário Little Deyzuna, que fica super forte quando chora. E temos ainda a participação toda especial de Trava e seu fiel escudeiro Shinkai - para maiores informações, leiam a resenha de "Trava". ^_~

Quanto aos dubladores, há alguns nomes famosos no elenco, como Tadanobu Asano (Frisbee), o Kakihara de "Ichi o Assassino"; Yuu Aoi (Sonoshee McLaren), dos ótimos "Hana & Alice" e "Hula Girls"; e Takuya Kimura (JP), dublador de Howl em "O Castelo Animado". Mas confesso que nenhuma dublagem me agradou mais que a de Kenta Miyake como o chorão Little Deyzuna. Tudo bem, sei que é exagerada e tudo o mais, mas era impossível segurar o riso a cada vez que o personagem aparecia, possesso e chorando como um louco, e "sentando a mão" em quem pintasse à sua frente.

Isto não significa que "Redline" seja apenas estilo com zero de substância. Roboworld tem características que nos remetem ao nazismo alemão (totalitarismo, militarismo, propaganda, refugiados), incluindo a insígnia que tem uma semelhança nada sutil com a suástica nazista. Há ainda uma crítica ao poder da mídia, disposta a colocar seus contratados em situações de risco extremo, tudo por alguns pontos de audiência. Mas é como entretenimento puro que "Redline" brilha. Misturando corridas, batalhas aéreas, comédia e até mesmo um pouco de "kaiju eiga", "Redline" é daqueles animes tão pirados e psicodélicos que ficamos a imaginar como conseguirão manter o ritmo durante 101 minutos sem perder o pique.



Com momentos antológicos como a apresentação dos pilotos e, especialmente, os 20 minutos finais, "Redline" é uma obra incrível que, verdade seja dita, talvez não agrade a todo mundo. Não por acaso, acabou sendo um tremendo fracasso comercial no Japão: com um custo de produção de US$26 milhões, arrecadou menos de US$9 milhões nos cinemas japoneses. Mas se até Marcelo Reis, o "Sr-gosto-apenas-de-animes-com-bons-personagens-e-roteiros-inteligentes", sorriu de orelha a orelha durante toda a duração de "Redline", talvez valha a pena conferir esta pequena pérola criada pelas mentes insanas de Takeshi Koike, Katsuhito Ishii e seus colegas da Madhouse.


Marcelo Reis