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quinta-feira, janeiro 08, 2015

Short Peace (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/01/2015

Ano: 2013
Diretor: Koji Morimoto, Shuhei Morita, Katsuhiro Otomo, Hiroaki Ando, Hajime Katoki
Estúdio: Sunrise / Shochiku
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 68 min
Gênero: Aventura / Drama / Mistério / Histórico



Mesmo sabendo que o resultado final pode ser decepcionante, sou vidrado nestas antologias de animes que aparecem de tempos em tempos, como "Robot Carnival", "Genius Party" e "Genius Party Beyond". Cheguei a "Short Peace" totalmente sem querer, ao procurar mais informações sobre o curta "Combustible", de Katsuhiro Otomo. "Short Peace" é um projeto multimídia que consiste de quatro curtas animados produzidos pela Sunrise e Shochiku, e um videogame de plataforma (Ranko Tsukigime's Longest Day) criado pelas softhouses Crispy's Inc. e Grasshopper Manufacture para o PS3, com distribuição a cargo da Bandai Namco Games.

O tema central que une todo o projeto é o Japão, com cada OVA abordando uma época específica da história do país. Como a era moderna não foi representada em nenhum dos quatro curtas animados, acabou aparecendo no jogo, cuja criação ficou por conta do malucaço Suda 51, responsável por jogos como "No More Heroes", "Killer is Dead" e "Sine Mora".

A abertura do anime foi criada por Koji Morimoto (Magnetic Rose, Beyond, Dimension Bomb) e possui a mesma aura psicodélica de suas outras animações. Uma menina brinca de esconde-esconde com o irmão, quando um coelho a autoriza a entrar numa esfera esquisitaça, dentro da qual existe um mundo muito louco onde tudo parece possível, com direito a uma trilha sonora eletrônica empolgante e efeitos sonoros criativos. E é com esta animação toda que vamos para o primeiro curta...

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POSSESSIONS (TSUKUMO) - DIREÇÃO DE SHUHEI MORITA

No século XVIII, um viajante solitário enfrenta uma tempestade em meio a uma floresta e busca abrigo da chuva em um pequeno templo abandonado. Sua intenção inicial era apenas passar a noite em segurança naquele templo em ruínas, mas assim que ele coloca os pés lá dentro, o ambiente ganha vida, com sombrinhas malucas e puladoras caindo aos pedaços e papéis de parede voadores reclamando do descaso e do abandono.

Qualquer um provavelmente entraria em pânico naquele local assombrado, mas não o nosso amigo viajante. Armado com sua maleta "1001 utilidades", ele tenta entender toda aquela situação e procura reparar tudo o que está em mau estado de conservação. Mesmo com alguns eventos pra lá de assustadores, o viajante sente-se agradecido pela ajuda dos espíritos que ali habitam e que o acolheram naquele momento difícil.

Shuhei Morita chamou a atenção com seu fabuloso curta "Kakurenbo", tanto que trabalhou ao lado de Katsuhiro Otomo em "Freedom" um pouco depois. Morita utiliza mais uma vez a técnica de 3D com "cell-shading", mas o resultado é muito superior a qualquer de suas obras anteriores. O desenho de personagens de Daisuki Sajiki (Kakurenbo) é expressivo, e as texturas de tecidos e outros objetos beiram a perfeição. E apesar do forte clima de terror que permeia toda a obra, "Possessions" consegue a proeza de ser um anime muito alto-astral. Em "Possessions", é nítida a evolução de Shuhei Morita como narrador e artista visual.

"Possessions" foi indicado a "Melhor Curta de Animação" no Oscar 2014, mas acabou não levando a estatueta, que ficou com a animação francesa "Mr. Hublot". Mas premiado com o Oscar ou não, "Possessions" é um excelente anime, e abre "Short Peace" com chave de ouro.

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COMBUSTIBLE (HI-NO-YOUJIN) - DIREÇÃO DE KATSUHIRO OTOMO

Em 1657, o grande incêndio de Meireki destruiu praticamente 70% da capital japonesa de Edo, atual Tóquio, durou três dias no total e matou quase 100 mil pessoas. "Combustible" retrata este triste incidente, focando na história de Okawa e Matsuyoshi. Okawa era uma garotinha que levava uma vida solitária na infância, e acabou tornando-se muito amiga de Matsuyoshi, garoto que morava na casa vizinha e que sonhava em se tornar bombeiro.

Anos depois, a vida de Okawa não está nada bem, com os pais fazendo os preparativos finais para seu casamento com alguém que ela nem conhece. Sonhando acordada em ser salva por Matsuyoshi, hoje um membro aguerrido do Corpo de Bombeiros, Okawa inicia um incêndio que começa de forma prosaica, quase imperceptível, mas que logo toma proporções épicas.

"Combustible" começa muito bem, com a cidade de Edo representada à distância num pergaminho. À medida em que o pergaminho se movimenta horizontalmente, o desenho vai se aproximando suavemente, até chegar ao jardim da casa de Okawa em sua infância. E se esta parte tem um aspecto quase artesanal, o restante do anime possui um visual arrebatador, que vai desde os detalhes quase paranóicos em um robe usado por Okawa, até a destruição em escala apocalíptica causada pelo incêndio. O desenho de personagens de feições bem nipônicas é maravilhoso, fugindo da caraterística de olhos grandes que geralmente associamos aos animes.

Infelizmente, "Combustible" decepciona bastante no aspecto emocional. É mais ou menos como aqueles filmes que, em cenas de drama, colocam os artistas chorando e gritando a plenos pulmões para demonstrar seu desespero: no fim das contas, esta overdose de sentimentos anestesia o espectador, que não se importa tanto com o que acontece. Aqui ocorre o mesmo: é tanta destruição, gritaria, correria e pânico, que não formamos uma ligação emocional com a história de Matsuyoshi e Okawa. Vale pelo visual incrível e pela fantástica trilha sonora percussiva sempre num "crescendo" mas, em minha opinião, é o curta mais fraco de "Short Peace".

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GAMBO - DIREÇÃO DE HIROAKI ANDO

Um povoado japonês sofre com a presença de um demônio vermelho que arrasa as construções e rapta uma mulher por noite, com o intuito de usá-las para gerar novos demônios. Os homens rezam a Buda em busca de proteção, mas sua fé não tem adiantado. Para salvar a vida da jovem Kao, a última mulher remanescente, os aldeões pedem ajuda a um samurai ferido e que escapou recentemente de um urso branco misterioso presente na região. Mas talvez seja justamente este urso a última esperança para a pobre Kao.

"Gambo" é interessante em termos técnicos, pois apesar de ter um desenho de personagens mais tradicional (mais um fantástico trabalho de Yoshiyuki Sadamoto), possui um estilo de traço cru, com uma textura granulada, como se fosse colorido a lápis. Uma escolha acertada do diretor de arte Yoshiaki Honma, pois esta estranheza do traço cria uma atmosfera de pesadelo, que se torna quase insuportável quando o demônio vermelho aparece em cena.

E que demônio nojento! Com tetas gigantescas, bunda peluda e verrugas por todo o corpo, é uma das criaturas mais repugnantes e ameaçadoras que já vi em um anime. E "Gambo" é pródigo em cenas impressionantes, com sequências violentíssimas em que o sangue jorra por todos os cantos da tela, ou mostrando uma pobre mulher agonizante com o ventre repleto de novas criaturas. Mesmo já tendo visto animes muito violentos, confesso ter ficado bem impressionado com o nível de "gore" presente em "Gambo". Mas levando-se em conta que o responsável pela história foi o "maluco beleza" Katsuhito Ishii (Redline, The Taste of Tea), isto não é nenhuma surpresa: a mente do cara está em outra dimensão. :)

"Gambo" é definitivamente uma obra intensa, prejudicada apenas pelo papo meio bobo e piegas sobre a necessidade de se ter fé para encontrar a salvação, além de acabar muito de supetão.

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A FAREWELL TO WEAPONS (BUKI YO SARABA) - DIREÇÃO DE HAJIME KATOKI

Num futuro pós-apocalíptico, um grupo de soldados coleta armas em depósitos nas cidades destruídas. Quando estão se aproximando de uma determinada cidade, são recebidos de forma nada amistosa por um sentinela-robô muito poderoso.

Visualmente, acredito que este seja o curta com mais cara do Katsuhiro Otomo - por sinal, é baseado em uma história original de sua autoria. Toda a parte de desenho mecânico, construções e desenho de personagens tem aquele nível de detalhe quase doentio que Otomo aplica às suas obras, sem contar a animação insanamente fluida. E isto é extremamente bem-vindo, pois estamos falando de um anime com ação ininterrupta, repleto de tiros e explosões, e com tomadas de câmera dinâmicas e inventivas.

Hajime Katoki, mais conhecido por seu trabalho como desenhista mecânico em vários animes do universo Gundam, assume pela primeira vez a cadeira de diretor, e exerce muito bem a nova função. "A Farewell to Weapons" tem uma narrativa rápida, e mesmo não tendo muito tempo para apresentar os personagens com calma, ficamos com os nervos à flor da pele durante os combates contra o sentinela-robô, torcendo para que todos sobrevivam ao final. E apesar do perigo constante, há muitos diálogos espirituosos para quebrar a tensão, que não passam aquela sensação de piadinhas idiotas tão comum em alguns "blockbusters" americanos.

A motivação dos caras para realizar o serviço é que ficou meio no ar: não deu para saber direito se trabalham para alguém, se pegam as armas por dinheiro ou para uso próprio. E o final, ainda que interessante, parece um pouco besta, com um humor que definitivamente não combina com o que acontecera minutos antes. Mas nada disto estraga a experiência de assistir a este excelente anime de ação, com cenas que não sairão de sua cabeça tão cedo.

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"Possessions" é, disparado, a melhor e mais completa obra em "Short Peace". "Gambo" e "A Farewell to Weapons" são muito bons, e apenas "Combustible" decepciona um pouco. Uma excelente antologia de curtas, que cresce na memória com o passar do tempo.


Marcelo Reis


sábado, março 02, 2013

Freedom (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/03/2013

Ano: 2006
Diretor: Shuhei Morita
Estúdio: Sunrise
País: Japão
Episódios: 07
Duração: 6 x 25 min e 1 x 48 min
Gênero: Aventura / Romance / Sci-Fi


Série de OVAs produzida pela Sunrise e contando com a colaboração de Katsuhiro Otomo e Shuhei Morita, "Freedom" é o tipo de obra que, pelo menos no papel, tinha tudo para ser um anime memorável. Afinal, Shuhei Morita foi o responsável por "Kakurenbo", utilizando uma técnica de "cell-shading" que deu uma qualidade técnica notável a uma animação totalmente caseira. Katsuhiro Otomo dispensa comentários: basta assistir a "Akira" para ver do que ele é capaz, especialmente no tocante a projetos mecânicos detalhados e animação impecável. Juntar dois estilos tão distintos e ainda contar com a produção da Sunrise, notória por simplesmente arrebentar em animes baseados em mechas, espaço sideral e afins... realmente difícil segurar o entusiasmo!

Uma base lunar foi construída com o intuito de ser um ponto de partida para a futura colonização de Marte. Mas a queda de uma estação espacial na Terra levou à deterioração irreversível do meio-ambiente, e a guerra por recursos acabou ocasionando o fim da civilização: a Terra virou um planeta morto. A base lunar se transformou em colônia, de modo a garantir a sobrevivência da humanidade, e recebeu o nome de Projeto Éden.

100 anos depois, os humanos vivem dentro de seis imensos domos na Lua, numa utopia altamente controlada, de modo a manter os humanos sempre supervisionados, levando suas vidinhas calmas e estáveis de sempre. As pessoas devem se recolher aos seus dormitórios em horários pré-determinados, todos usam pulseiras eletrônicas que servem ao mesmo tempo como intercomunicadores e rastreadores, e câmeras de vigilância controlam cada cantinho da colônia.

É neste ambiente que vive Takeru, jovem de personalidade forte que, para fugir do tédio reinante em Éden, participa de corridas clandestinas de motos semelhantes a "hovercrafts". Acompanhado pelos amigos Kazuma e Bismarck, responsáveis também por darem os ajustes necessários à sua moto antes das corridas, Takeru usa sempre uma jaqueta branca de astronauta com o emblema do Projeto Apolo, sem imaginar que este projeto havia sido responsável por levar os pioneiros à superfície lunar, praticamente 300 anos antes.

Prestes a tornarem-se cidadãos plenos, os jovens precisam escolher uma carreira para toda a vida. E a cada pequeno delito cometido, como as tais corridas de moto, devem realizar "trabalhos voluntários" pelo bem da colônia, geralmente envolvendo a manutenção externa dos domos. E é numa destas missões externas que Takeru recebe uma mensagem inesperada, gerando milhares de indagações na mente do jovem sobre a verdade por trás das origens de Éden e da destruição da Terra.


"Freedom", como era de se esperar, usa a mesma técnica de "Kakurenbo" mas, desta vez, aliada ao excelente desenho de personagens e projetos mecânicos ultradetalhados de Katsuhiro Otomo. Muita coisa em "Freedom" lembra demais alguns aspectos de "Akira", como as corridas de motos entre gangues rivais, os cenários futuristas das cidades, os ambientes subterrâneos, e até mesmo algumas partes da trilha sonora, com percussões similares à utilizada por Geinoh Yamashirogumi na animação de 1988. Os efeitos sonoros são impressionantes, bem mixados e dão muita força ao que se passa em cena, em especial nas cenas de ação. Mesmo não tendo um orçamento tão alto quanto o de um longa-metragem, "Freedom" faz bonito nos aspectos técnicos.

Infelizmente, "Freedom" nao alcança a mesma excelência em termos de conteúdo. O início é promissor, a amizade entre o rebelde Takeru, o ponderado Kazuma e o medroso mas inteligente Bismarck é sincera e convincente, e dá para compreender perfeitamente a necessidade dos jovens de fugirem do tédio e do marasmo, e correrem atrás de seus sonhos. Mas o que começa com um pé na realidade logo se torna uma história totalmente implausível e manipuladora, com um excesso de altruísmo e melodrama, um roteiro repleto de inconsistências e diálogos expositivos, além de um péssimo equilíbrio entre dramalhão, comédia pastelão e ação exagerada.

Exagero? Bom, o que dizer de um jovem que resolve viajar da Lua para a Terra porque se apaixonou por uma garota que viu em uma foto? Ou de uma sociedade super controladora, capaz de monitorar toda a superfície da Terra a milhares de quilômetros de distância, mas que não sabe da existência de gigantescos foguetes escondidos dentro da "Freedom", uma corporação particular que seria a encarregada da colonização de Marte? Ou dos heróis que caem nas "ciladas" mais toscas da história, incapazes de enganar até mesmo um moleque babão? Ou a possibilidade de um rebelde e ex-detento se tornar, em menos de 3 anos, um membro da mais alta hierarquia e merecedor de confiança irrestrita dentro de uma sociedade dita "científica" e "inteligente"? Ou frases como: "Estamos levando a amizade, o amor e o espírito!" e "Todos que escaparam do tédio, morreram"?

Ainda daria para me alongar bastante nisto, mas prefiro ir logo ao que, disparado, é o fator mais irritante em "Freedom": A GRITARIA!!! Imaginem pessoas que GRITAM E GRITAM E GRITAM SEM PARAR por qualquer coisa! Se estão fugindo, GRITAM PRA FUGIR MAIS RÁPIDO! Se estão animados, GRITAM PARA DEMONSTRAR ANIMAÇÃO! Se estão apaixonados, GRITAM PARA DEMONSTRAR O SEU AMOR! Se estas palavras em maiúsculas te incomodaram, imagine o que é ouvir esta gritaria durante quase 4h de série? Isto, sim, dá vontade de pular pela janela, gritando SOCORRO!!!!!




Não digo que "Freedom" seja uma porcaria como "Sin, the Movie" ou "Nazca", longe disto. A história tem momentos interessantes e até emocionantes que, infelizmente, são estragados pelos defeitos citados acima. Vale a pena assistir a esta série pelo menos pelo visual, que é realmente impressionante, mas tendo em mente que o resultado final em termos mais abrangentes decepciona bastante. Ah, claro: usem protetores de ouvido quando forem assistir, para evitar surdez precoce com toda a gritaria.


Marcelo Reis


 

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Kakurenbo (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/09/2006.

Alternativos: Kakurenbo - Hide and Seek
Ano: 2004
Diretor: Shuhei Morita
Estúdio: CoMix Wave / Yamatoworks
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 25 min
Gênero: Terror / Mistério


A evolução tecnológica tem trazido muitas facilidades para a população, através de telefones celulares cada vez mais eficientes, internet rápida, iPods, máquinas fotográficas e filmadoras digitais, e assim por diante. Vários profissionais também foram altamente beneficiados por esta tecnologia onipresente, como músicos, produtores de jogos eletrônicos, escritores e, claro, animadores. Hoje em dia, é possível que uma pessoa consiga seu lugar no mercado sem a necessidade de trabalhar em uma grande empresa: se tiver o talento para fazer um bom trabalho e conseguir fazer uma bela divulgação do mesmo usando a internet, tem grandes chances de obter sucesso.

Em relação ao mundo da animação, a referência máxima continua sendo Makoto Shinkai, que apareceu em grande estilo com o belíssimo OVA "Hoshi no Koe", cujo sucesso abriu as portas para que pudesse realizar o igualmente belo longa-metragem "Beyond the Clouds". Considerado uma das maiores promessas da animação e com chances de se tornar um dos grandes nomes do futuro, Makoto Shinkai é a prova viva de que o talento puro ainda tem lugar no mercado.

Seu sucesso serviu de estímulo para muita gente talentosa em todo o Japão, pessoas com muitas idéias e uma enorme vontade de trabalhar mas que não conseguiam um lugar dentro do competitivo mercado japonês. É claro que, neste "boom" de animações caseiras, surgiu muita coisa ruim ou que não passava nem perto da excelência das obras de Makoto Shinkai. Mas uma coisa é certa: "Kakurenbo" nem de longe se encaixa neste perfil de obras medíocres, sendo um dos poucos animes independentes que parecem ter sido feitos por um grande estúdio de animação.

Curtíssimo filme com apenas 25 minutos, lançado em 2005 pela Comix Wave (a mesma que distribui as obras de Shinkai) e produzido pelo novíssimo e minúsculo estúdio Yamatoworks, Kakurenbo é uma obra feita por uma equipe de 10 pessoas, além dos "seiyuus", mas pode-se dizer que o grosso da produção foi realizado apenas por três pessoas. Shuhei Morita foi responsável pela maior parte das tarefas: além de criador do mangá homônimo que deu origem ao anime, Morita ainda trabalhou como diretor, desenhista de cenário, criador dos "storyboards", editor, produtor e animador em CGI. Daisuke Sajiki e Shiro Kuro dividem algumas destas importantes funções com Shuhei Morita, mas em menor número.

Em um anime tão curto, é bom falar o mínimo para não estragar as surpresas. Kakurenbo quer dizer "esconde-esconde", e a história do anime fala sobre o jogo do "o-to-ko-yo", uma variante secreta, diferente e perigosa desta brincadeira tão comum e inocente. De acordo com os boatos, é preciso evitar a "Cidade Sombria", pois acredita-se que demônios vivam lá. Muitas crianças foram até esta cidade para brincar de "o-to-ko-yo", mas nunca voltaram. Para participar do jogo, as crianças devem andar pelas ruas, procurando pelos caracteres "o-to-ko-yo" que brilham com destaque nos painéis em neon e indicam o caminho para se chegar ao local da brincadeira. Quando sete crianças chegam, o jogo começa...


Apesar de ser o primeiro anime da Yamatoworks, é preciso admitir que os caras começaram mandando muito bem, fazendo escolhas difíceis que se mostraram extremamente acertadas. Um exemplo diz respeito ao enfoque dado à história: é muito difícil conseguir se aprofundar no histórico dos personagens em uma animação tão curta, exceto em um caso como Hoshi no Koe, que possui apenas dois personagens. Em Kakurenbo existem várias crianças, e praticamente a única que merece um pouco mais de atenção é Hikora, um garoto que entra no jogo para procurar a irmã Sorincha, desaparecida há alguns dias após ter saído para participar do "o-to-ko-yo". Os demais são personagens mais genéricos, como o valentão que vira um covarde na hora H, ou duas garotas, talvez gêmeas, que não abrem a boca mas parecem saber mais do que aparentam sobre o que acontece no jogo. Existe ainda uma garota misteriosa na história, que parece ser Sorincha mas trata Hikora de forma distante... qual seria o seu papel?

E por que digo que não se aprofundar nos personagens foi uma decisão acertada? Porque, ao invés de perder um tempo precioso descrevendo os personagens, a equipe resolveu se focar no que realmente importa, o clima de pesadelo, estranheza e terror que permeia todo a brincadeira. E, acreditem, poucos animes conseguiram passar esta sensação com tamanho sucesso. Para começo de conversa, a animação de Kakurenbo é simplesmente inacreditável, com uma combinação de cores, luzes e sombras capazes de impressionar até mesmo profissionais experientes no ramo, criando um ambiente muito colorido e, ao mesmo tempo, sombrio e opressivo. Kakurenbo é um anime totalmente feito em ambientação 3D, com cenários de fundo belíssimos e detalhados, enquanto os personagens foram criados usando a técnica de "cel-shading", famosa por ter causado furor no cultuado jogo "Jet Set Radio", desenvolvido pela Smilebit para o SEGA Dreamcast. Esta foi mais uma escolha acertada da equipe, pois geralmente a inserção de personagens 2D em um universo 3D fica falsa, um não se encaixa bem no outro, enquanto personagens 3D usando "cel-shading" se integram perfeitamente ao ambiente.

Em mais uma jogada de mestre, Shuhei Morita & Cia criaram uma regra de acordo com a qual cada criança deveria usar uma máscara de raposa para participar do "o-to-ko-yo". Com isto, evitaram o problema de criar as expressões faciais dos personagens em 3D, algo sempre muito complicado, e ainda adicionaram um tempero especial ao anime, já que as máscaras, além de muito expressivas, dão um clima tétrico às crianças.

Os demônios são um caso à parte. Todo o anime é um deslumbre visual, mas os demônios são verdadeiras obras-de-arte em termos de "design" e animação, estando sem dúvida entre algumas das entidades mais assustadoras já mostradas em um anime. Dá aquele frio na espinha só de imaginar a situação das crianças enfrentando seres tão soturnos. Para aumentar ainda mais a dramaticidade, Shuhei Morita optou pelo uso constante de tomadas em "contre-plongée", de baixo para cima, que passam a impressão de que os monstros são ainda mais poderosos e assustadores. além de "fade-outs" nos momentos certos, deixando que o espectador imagine o que possa ter acontecido na cena. Tudo isto auxiliado por uma trilha sonora embasbacante de Karin Nakano e Reiji Kitasato, lembrando em alguns momentos a poderosa trilha feita por Geinoh Yamashirogumi para o cultuado "Akira", só que ainda mais mórbida.



Com uma interessante idéia de "ciclo sem fim" rumo ao final, Kakurenbo mostra que o pessoal da Yamatoworks dará muito o que falar no futuro. É claro que uma história um pouquinho mais interessante ou personagens um pouquinho mais detalhados ajudariam muito, mas, no final das contas, Kakurenbo cumpre sua função com sobras. É um anime de visual belíssimo, com um clima de terror angustiante que só aumenta com o passar do tempo, e ainda possui alguns "demoniozinhos" muito simpáticos para tirar o sono dos mais sensíveis. Por isto, pense bem antes de brincar de "esconde-esconde"... sabe-se lá o que pode lhe aguardar na esquina mais próxima.


Marcelo Reis