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sexta-feira, março 01, 2013

Revolutionary Girl Utena (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 08/08/2004.

Alternativos: Shoujo Kakumei Utena: Adolescence Mokushiroku, Utena: A Garota Revolucionária
Ano: 1999
Diretor: Kunihiko Ikuhara
Estúdio: J.C. Staff
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 80 min
Gênero: Drama / Fantasia / Romance


No Japão, séries animadas de sucesso freqüentemente ganham versões superturbinadas, produzidas para exibição nos cinemas. Não existe uma fórmula pré-determinada sobre o assunto a ser tratado nestes "longas". Em Cowboy Bebop, o longa-metragem "Knockin' On Heaven's Door" funciona como um alongado episódio adicional da série, enquanto "End of Evangelion" mostra um final mais violento e apocalíptico para a série "Neon Genesis Evangelion" do que aquele exibido originalmente na TV.

No caso de Utena, a situação é um pouco estranha, pois o "movie" não chega a mostrar uma estória paralela ou uma continuação. Pode-se dizer que, basicamente, a estória do longa-metragem é a mesma da série, mas contada de um ponto de vista completamente diferente, mostrando inclusive fatos nem sequer citados na versão para a TV. E um aviso aos navegantes: caso não tenham assistido à série de TV, passem longe deste "movie", a menos que queiram dar um nó na cabeça! Este longa-metragem é suficientemente complicado e lisérgico até mesmo para quem conhece a estória e já está acostumado com o estilo maluco do "Universo Utena".

Produzido em 1999 pela mesma equipe da série para a TV, o "movie" de Utena é o veículo perfeito para expandir as loucuras visuais deste universo tão bizarro. Com um orçamento mais elevado, os artistas da JC Staff não economizaram no gasto de células de animação, criando seqüências de impressionante beleza. O traço de Hasegawa Shinya está mais belo do que nunca, mantendo as mesmas características presentes na série (traços agudos, corpos longilíneos), mas beneficiado pelo impecável trabalho de animação. A trilha sonora, novamente a cargo de Shinkichi Mitsumune e J.A. Seazer, não é tão marcante quanto na série de TV, mas possui aquela que talvez seja a melhor música do "Universo Utena": "Toki ni Ai wa", cantada por Masami Okui e que serve como pano de fundo para a bela seqüência envolvendo Utena e Himemiya no Jardim das Rosas. Momento antológico!


Se, nos aspectos técnicos, o "movie" de Utena coloca a série de TV no chinelo, o mesmo não pode ser dito da história. Como foi dito acima, o enredo é "basicamente" o mesmo, mas não é "exatamente" o mesmo. Algumas surpresas e mudanças feitas vieram a calhar, como a personalidade mais forte de Himemiya Anthy, a injeção de humanidade na conturbada mente de Touga Kiryu e, principalmente, demonstrações mais explícitas dos reais sentimentos existentes entre Utena e Himemiya. Mas, infelizmente, grande parte das alterações prejudicaram muito o interesse e a força da estória: personagens importantes, como Juri Arisugawa e Miki Kaoru, têm presença quase decorativa no longa-metragem; a forçada trama paralela envolvendo Touga e Utena é ruim e pouco envolvente; e, na pior alteração, o irmão de Himemiya, Akio, apesar de ainda importante na trama, não possui metade do carisma e da imponência presentes na série de TV.

Algumas perguntas interessantes são respondidas, como a razão pela qual todos querem a "Noiva da Rosa" mas, no geral, a história passa a impressão de estar enrolando o espectador, servindo apenas como desculpa para o desfile de belas imagens na tela. As viagens lisérgicas não são tão inspiradas quando em Utena TV, as marionetes não têm a mesma presença em cena, e os dramas e personagens são apresentados de maneira tão acelerada que mesmo aqueles que são fãs da série, como eu, não conseguem se importar muito com o que possa acontecer ao longo do "movie". Interessante notar que o execrável Chuchu, um verdadeiro cancro na série de TV, é responsável pela parte mais engraçada do longa-metragem, na impagável seqüência da "Fita Escandalosa", um dos poucos momentos realmente inspirados deste anime.

A impressão que se tem é que o diretor Kunihiko Ikuhara sabia exatamente que rumo seguir na série de TV mas, ao assumir a batuta para reger o "movie", perdeu completamente o controle do bonde. E isto fica bem explícito nas seqüências finais do anime, um desfecho que mostra um show de animação a cargo de alguns dos momentos mais bisonhos da história da animação. Verdade seja dita, o "movie" não se segura para valer em nenhum momento, mas qualquer fiapinho de história que ainda pudesse manter uma certa coerência na história é jogado no lixo nas seqüencias finais.



Apesar dos muitos defeitos, Utena Movie merece ser assistido por aqueles que gostam da série original, nem que seja apenas para se deslumbrar com o visual, a bela animação e a ousadia nos temas polêmicos (incesto, homossexualismo, etc). Triste é sentir que este longa-metragem podia oferecer muito mais do que apenas excelência visual e viagens lisérgicas. Basta comparar com a série de TV para perceber que Utena Movie poderia ter ido muito, mas muito mais longe. Uma pena...


Marcelo Reis


 

Revolutionary Girl Utena (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/10/2003.

Alternativos: Shoujo Kakumei Utena
Ano: 1997
Diretor: Kunihiko Ikuhara
Estúdio: J.C. Staff / SoftX
País: Japão
Episódios: 39
Duração: 25 min
Gênero: Drama / Fantasia / Romance


Originalidade, estilo e ousadia. Estas três palavras resumem bem as principais características desta fantástica e cultuada série, produzida em 1997 pela B-Papas. Baseada no mangá de Saitou Chiho, Shoujo Kakumei Utena é uma série que demonstra mais uma vez a capacidade do estúdio J.C. Staff (Excel Saga, Karekano) em criar animações inspiradas e com visual lisérgico. Não importa a quantidade de animes que você já tenha assistido até hoje: você nunca viu nada parecido com Shoujo Kakumei Utena, pelo menos no estilo visual.

Tudo começa com o choro de uma jovem princesa no túmulo de seus pais, recém-falecidos. Um belo príncipe, atraído por seu choro, aproxima-se para consolá-la e a presenteia com um anel, dizendo que o mesmo a guiará até ele, no momento oportuno. O príncipe ainda lhe dá um conselho: "Nunca perca sua força nem sua nobreza, quando crescer...". Profundamente marcada por este acontecimento, a garotinha toma uma decisão radical: quer tornar-se um príncipe, também! ^_^" Na realidade, ela decide agir como um rapaz visando proteger as garotas, ao invés de viver passivamente, esperando que um príncipe a proteja.

Tenjou Utena é o nome desta garotinha. Estudante da Academia Ohtori, Utena agora é uma bela e atraente adolescente, que veste apenas uniformes masculinos e enfrenta os homens de igual para igual nos esportes. Esta sensualidade feminina com um leve verniz de masculinidade faz com que Utena seja a garota mais popular da escola, admirada igualmente por homens e mulheres. Apesar de ser considerada "anarquista" por alguns professores mais tradicionais, Utena não tem a intenção de ser radical... quer apenas viver de acordo com seu ideal de "príncipe protetor", esperando que esta atitude, um dia, possa levá-la novamente ao encontro de seu salvador.

Utena não estava preparada para o terremoto que aconteceria em sua vida, com o aparecimento da bela Himemiya Anshii, estudante responsável por cuidar das rosas no jardim da Academia Ohtori. Após uma série de acontecimentos, Utena é jogada de cabeça numa realidade fantástica, na qual duelos de espada entre os membros do Conselho Estudantil decidem quem será o responsável pela "Noiva da Rosa". Esta pessoa escolhida terá a responsabilidade de revolucionar o mundo, de acordo com as mensagens enviadas pelos "Confins do Mundo".


Hahahahaha!! Aposto que não entenderam nada! ^__^ Mas podem ficar tranqüilos que a coisa não é tão complicada quanto aparenta. No fundo, a história central é apenas um pretexto para explorar os conflitos de interesses e as fantásticas personalidades dos personagens. Claro que muita coisa é propositalmente exagerada, mas a essência de cada personagem, escondida por trás das "máscaras", é o que realmente conta... neste aspecto, muita coisa pesada vai aparecendo: desejos incestuosos, ganância, vingança, ódio, traição. Quem começa a assistir à série esperando apenas romances e duelos vai se espantar com o andamento da história, da metade para o final.

Shoujo Kakumei Utena é um dos raros animes que valeria a pena assistir, mesmo que não tivesse história alguma. Além do estilo visual único (beneficiado pelo belíssimo desenho de personagens criado por Hasegawa Shinya), esta série possui duelos de espada memoráveis, nos quais as questões psicológicas têm importância vital. E não dá para deixar de comentar sobre a excepcional trilha sonora, uma das melhores já criadas para uma série de TV, e que consegue ser bem-sucedida na missão (quase) impossível de fornecer um fundo musical perfeito ao piradíssimo ambiente deste anime. E temos ainda as louquíssimas intervenções dos teatros de marionetes... só vendo, mesmo!

Mas Shoujo Kakumei Utena está longe de ser uma série impecável. O problema mais visível diz respeito à duração... não havia necessidade de estender a série para 39 episódios. Muitos eventos e duelos são totalmente dispensáveis, assim como algumas tramas paralelas. 26 episódios seriam mais do que suficientes para contar a história de maneira adequada. Outra problema é que, em alguns momentos, Shoujo Kakumei Utena vira um "novelão", com direito a dramalhões, coincidências e outros defeitos comuns aos folhetins. Ah, e como me esquecer do lixo cômico e desnecessário chamado Chuchu? =(



Ainda assim, Shoujo Kakumei Utena é uma série única, com um estilo tão exagerado que beira o "kitsch" (coisa cafona ou brega). Mesmo com seus defeitos evidentes, é um anime diferente e ousado, um sopro de originalidade em meio ao amontoado de séries sem alma que têm invadido o mercado nos últimos anos.


Marcelo Reis