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sexta-feira, março 01, 2013

Otaku no Video (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 10/05/2003.

Ano: 1991
Diretor: Takeshi Mori
Estúdio: Gainax
País: Japão
Episódios: 2
Duração: 50 min
Gênero: Comédia / Drama / Histórico / "Mockumentário"


O nome desta estranha obra da Gainax, produzida em 1991 e composta por 2 OVA´s, já explica exatamente qual é a sua essência... o Vídeo do Otaku! Se, nos países ocidentais, o termo "otaku" é uma maneira carinhosa de se referir aos fãs de animes, no Japão a história é diferente. Por lá, "otaku" é utilizada em sua acepção mais ampla, "fanático", daqueles que possuem uma devoção quase religiosa pelo objeto de adoração... não só animes e seus personagens, mas qualquer coisa: brinquedos, armas de guerra, pessoas famosas, imagens pornográficas.

Otaku no Video é um espécie de anime documental. Além da história que se desenrola na forma de uma animação tradicional, Otaku no Video possui ainda vários depoimentos feitos por pessoas reais, focalizando os vários tipos de "otakus" existentes no Japão.

A história do anime começa em 1982 e gira em torno da vida de Kubo, um comunicativo e atraente estudante com um promissor futuro como jogador de tênis. Kubo leva uma vida tranqüila, cumprindo à risca suas obrigações e participando dos festivais da escola, como qualquer estudante japonês responsável. As coisas começam a tomar um novo rumo quando Kubo se encontra por acaso com Tanaka, um amigo de quem não tinha notícias há muito tempo. "Otaku" até a alma, Tanaka começa a mostrar um novo mundo a Kubo, no qual não existem limites para a fantasia e a imaginação: o mundo dos animes!


A jornada de Kubo, Tanaka e seus companheiros "otakus", hilária e surreal, é também uma verdadeira aula sobre animes. Além de demonstrar técnicas utilizadas na criação de animes e explicar o sentido de vários termos comumente usados (Cosplay, Garage Kits, Doujinshi, etc...), Otaku no Video mostra como alguns eventos em especial foram essenciais para a explosão dos animes em todo o mundo: a estréia de Näusicaä nos cinemas japoneses (1984); o investimento pesado de bancos e grandes corporações japonesas nas produções animadas, transformando o universo dos animes em um negócio muito atraente; e, claro, a explosão dos animes dentro dos EUA, que abriu de vez as portas do mercado ocidental para esta tradicional forma de arte japonesa. A animação se beneficia da conhecida capacidade técnica da Gainax, apesar de um certo exagero no uso de imagens paradas.

No entanto, é inegável que são os pequenos depoimentos com pessoas reais - na verdade, um "mockumentary" - o real atrativo de Otaku no Video. Com o sugestivo nome "Retratos de um Otaku", estes impressionantes relatos mostram como o fanatismo exacerbado pode levar as pessoas a comportamentos doentios, perdendo a noção entre o que é realidade ou fantasia e praticamente abdicando da vida em sociedade.

No geral, os "otakus" patológicos apresentam algumas características semelhantes:

- São pessoas que não conseguem terminar o que começam;
- Fixação em possuir uma coleção perfeita, mesmo que não façam uso prático da mesma;
- Mania de imitar personagens em conversas corriqueiras;
- Costumam falar sozinhos, numa espécie de autismo;
- Dificuldade de relacionamento com outras pessoas.
- Normalmente não namoram e se fixam em algumas forma de fantasia (hentais, bonecas) para aliviar os desejos;
- Costumam ser sedentários, gordos e meio preguiçosos.



Por incrível que pareça, Otaku no Video é uma obra que demonstra a paixão irrestrita da Gainax pelo mundo dos animes. No caso, Otaku no Video deve ser encarado como uma espécie de alerta: os animes, assim como os mangás ou qualquer outro tipo de hobby, devem ser encarados como um tempero para a vida, e não como a vida em si. Equilíbrio é a alma do negócio! ^_^


Marcelo Reis


 

The Wings of Honneamise (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2005.

Alternativos: Royal Space Force, Oritsu Uchuugun - Honneamise no Tsubasa
Ano: 1987
Diretor: Hiroyuki Yamaga
Estúdio: Gainax / Bandai Visual
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 125 min
Gênero: Drama / Guerra / Sci-Fi


Hoje em dia, após sucessos incontestáveis como "Neon Genesis Evangelion" e "Kareshi Kanojo no Jijou", o nome "Gainax" é um dos mais fortes no universo dos animes. Suas obras refletem o trabalho de uma equipe talentosa, visionária e apaixonada pelo que faz, além de exibir uma coragem invejável na hora de abordar temas polêmicos. Quem já assistiu ao aparentemente inocente Ebichu sabe bem do que estou falando.

Não é qualquer estúdio de animação que pode se gabar de ter estreado no mercado com uma produção tão ambiciosa quanto Wings of Honneamise. Como muitos devem saber, a Gainax começou como um grupo de talentosos amigos apaixonados por animação e que queriam uma chance para entrar neste mercado promissor e extremamente competitivo. Após criarem, por conta própria, alguns minutos de animação do que viria a ser tornar "Wings of Honneamise", a Gainax impressionou a tal ponto os engravatados da Bandai Visual que conseguiram, para sua obra de estréia, o humilde orçamento de 800.000.000 de ienes, algo próximo a 8 milhões de dólares!

Foi uma cartada de coragem da Bandai Visual, tendo em vista que, à época, o único nome realmente conhecido que viria a se envolver na produção era o de Ryuichi Sakamoto, famoso músico e compositor japonês, e futuro ganhador do Oscar de Melhor Trilha Sonora (ao lado de David Byrne e Cong Su) pelo filme "O Último Imperador". Nomes que se tornariam conhecidos no futuro, como Hideaki Anno, Yoshiyuki Sadamoto, Hiroyuki Yamaga e Hiromasa Ogura, representavam apenas talentos obscuros procurando seu espaço no "show business". A verdade é que estes talentos eram realmente extraordinários e mostraram que viriam para ficar de vez: poucas vezes na história do cinema uma obra de estréia conseguiu atingir tamanho grau de beleza, eficiência e encantamento. Pena que o público japonês não correspondeu nas bilheterias: Wings of Honneamise é, até hoje, considerado um dos maiores fracassos financeiros dentro da indústria cinematográfica japonesa.

Shirotsugh Lhadatt, ou simplesmente Shiro, é o que podemos chamar de um cara normal. Vindo de uma família de classe média, Shiro nunca conheceu o lado bom ou ruim da extrema pobreza nem da riqueza abundante. Seu sonho era entrar na Marinha do Reino de Honneamise para pilotar aviões, mas suas notas nunca foram boas o suficiente para permitir tal feito. Desta forma, só lhe restou uma opção: juntar-se à Royal Space Force.

A RSF é um grupo considerado de segunda linha dentro das instituições militares. Seus membros, assim como suas atividades, são motivos de constantes chacotas por parte da Força Aérea em geral. As razões para tal desprezo são várias: a simples idéia central por trás da existência da RSF, "construir uma nave que possa ir ao espaço e voltar em segurança", é considerada algo estúpido e inútil, os gastos para manter tal estrutura são absurdos, os projetos de vôo são considerados pura loucura, e por aí vai.


A verdade é que Shiro não liga para nada disto. No fundo, sua personalidade preguiçosa e largada só quer mesmo é passar o tempo e receber seu dinheirinho no final do mês até que consiga um novo emprego. Mas muita coisa começa a mudar quando conhece Riikuni Nonderaiko, uma bela e simples garota que distribui panfletos na rua para pessoas que buscam a salvação da alma neste mundo problemático, cheio de guerras e injustiças. O choque de idéias entre a mente materialista e comodista de Shiro e as idéias espiritualistas e combativas de Riikuni podem ter conseqüências imprevisíveis não apenas no destino de ambos, mas de toda a nação.

Acreditem: quanto menos souberem sobre o enredo, melhor. Falar muito sobre o que acontece ao longo da história pode estragar a maravilhosa experiência de se assistir a este fenomenal anime, uma obra de arte em todos os sentidos. É impressionante a capacidade dos membros da Gainax em criar um anime de estréia tão completo, deslumbrante do ponto de vista técnico e com uma história comovente que não apela para a pieguice. O excelente roteiro de Hiroyuki Yamaga (diretor de Mahoromatic e Abenobashi Mahou Shouten Gai) não acelera o ritmo da história, deixando que os fatos fluam tranqüilamente e permitindo que nós, espectadores, nos identifiquemos com as situações e conflitos vivenciados pelos excelentes personagens, balanceando brilhantemente o humor e o drama. O que começa como uma história simples e cômica sobre a realização dos próprios sonhos se transforma em algo mais complexo, mostrando a manipulação das massas pelos meios de comunicação, a necessidade de se criar heróis com os quais o povo possa se identificar, toda a corrupção e interesses existentes por trás das fachadas de instituições "altruístas", e muito mais. Até que ponto todo o avanço tecnológico existente significa realmente uma evolução? Justifica-se o eterno ciclo de mortes e guerras vivenciado pela humanidade em prol de uma causa maior?

Interessante notar que, apesar das críticas às instituições e à humanidade em geral, o roteiro de Hiroyuki Yamaga não é parcial. A humanidade comete muitos pecados, mas também possui muitas virtudes. O avanço causa problemas, mas também traz muitas coisas boas. Como atingir o equilíbrio em todo este processo é o grande "X" da questão.

Eu poderia falar horas sobre a parte técnica mas prefiro que cada um tire suas próprias conclusões. Só posso dizer que Wings of Honneamise, um anime produzido em 1987 sem nenhum auxílio de CGI, continua sendo uma das obras de animação mais impressionantes nos aspectos visuais. Não existe um único frame no qual a atenção quase doentia aos detalhes das expressões faciais, à animação insanamente fluida ou à perfeição no uso de luz e sombras tenha passado em branco... um deslumbre inigualável, uma obra de arte.

O retumbante fracasso financeiro de Wings of Honneamise poderia ter sido o fim da Gainax. Felizmente, tal fracasso não privou os fãs dos grandes animes produzidos por este excelente estúdio nos anos seguintes. Por alguma razão misteriosa, esta pequena empresa conseguiu sobreviver a este tremendo baque, cresceu aos poucos e se tornou a potência que é hoje.



Mesmo levando em conta a excelência de obras como "Karekano" e "Evangelion", considero "Wings of Honneamise" a obra máxima da Gainax. Pode ser que eu receba novas ameaças de morte por colocar "Honneamise" acima de "Evangelion", mas paciência: é preciso agüentar as conseqüências.


Marcelo Reis


 

Neon Genesis Evangelion (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 27/10/2002.

Alternativos: Shin Seiki Evangelion
Ano: 1995
Diretor: Hideaki Anno
Estúdio: Gainax / Production I.G
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 25 min
Gênero: Drama / Mecha / Sci-Fi


Evangelions, ou simplesmente EVA´s, são enormes mechas utilizados para proteger a Terra da invasão dos Anjos, gigantescos seres mecânicos com características orgânicas, capazes de evoluir e se regenerar. 15 anos antes, um Anjo foi o responsável pela ocorrência do Segundo Impacto, um evento catastrófico que transformou a Antártida num inferno e causou um número incalculável de mortes ao redor do planeta. Os EVA´s foram criados pela organização NERV com o intuito de evitar uma nova invasão dos Anjos e a conseqüente ocorrência de um apocalíptico Terceiro Impacto, que acabaria com toda e qualquer forma de vida na Terra.

Os EVA´s podem ser pilotados apenas por jovens de 14 anos, nascidos imediatamente após o Segundo Impacto e com algumas características especiais. Estes jovens, que possuem uma sincronia ímpar com os EVA´s, são:

- Rei Ayanami, uma garota sem passado, fria e sem emoções, que cumpre todas as ordens que recebe sem pestanejar.
- Asuka Langley Soryuu, garota alemã com excelente habilidades de luta mas extremamente convencida de sua força.
- Shinji Ikari, um garoto fechado e sem amigos, filho do líder da NERV, Gendo Ikari, com quem tem um relacionamento distante e impessoal.

À medida em que os confrontos entre EVA´s e Anjos ficam mais acirrados, torna-se mais claro que não é apenas o futuro da Terra que está em jogo mas, também, a existência da humanidade na forma em que conhecemos, não importando o lado vencedor. E diversas questões começam a aparecer: o que são, na verdade, os EVA´s? Qual a relação entre os EVA´s e os Anjos? O que foi o Segundo Impacto? O que é o Projeto paralelo coordenado por Gendo Ikari, a verdadeira razão por trás da existência da NERV? Seriam os Anjos e humanos realmente diferentes?

Já deu para perceber que complexidade é o que não falta a esta famosa série. Para quem viveu em Plutão nos últimos anos e está por fora das notícias, Neon Genesis Evangelion é, talvez, o anime mais famoso e cultuado de todos os tempos, com uma enorme legião de fãs espalhados por todo o mundo. Evangelion é uma obra do estúdio Gainax, conduzida com mão-de-ferro por Hideaki Anno, responsável pela direção e desenho dos mechas, e mistura cenas de ação incríveis com situações dramáticas e muitos questionamentos filosóficos.


Evangelion é uma das séries de TV mais impressionantes nos aspectos técnicos. Além da trilha sonora arrepiante, Evangelion possui uma qualidade de animação poucas vezes vista em séries de TV produzidas na época pré-CGI. Levando-se em conta que Evangelion é uma série mais longa, de 26 episódios, é de se admirar a capacidade de superação da Gainax, já que, aparentemente, o orçamento destinado à produção da série não foi dos mais expressivos. Ainda assim, apesar da reutilização de seqüências animadas aqui e ali e da queda brusca na qualidade da animação a partir do episódio 18, quando houve um corte de verbas por parte da SEGA, é impressionante o nível de excelência na animação na maior parte dos episódios. As cenas em que os EVA´s entram em ação, por si só, já valeriam a série.

Evangelion torna-se cada vez melhor à medida em que a história se desenvolve. Perguntas vão sendo deixadas em aberto, aumentando a curiosidade e a expectativa para o que vem em seguida, e os efeitos são marcantes, à medida em que a verdade vai aparecendo. Cheio de referências religiosas, Evangelion levanta questionamentos sobre a existência e a vontade do ser humano em se equiparar a Deus a todo custo, trazendo o conceito de animes com temas sérios para um patamar nunca antes imaginado.

Mas isto não quer dizer, nem de longe, que Evangelion seja um anime perfeito. Apesar de toda a complexidade do tema central, a primeira metade da série é extremamente simplista e irritante em algumas partes, com algumas situações forçadas ou cenas de combate tão exageradas que chegam a ser cômicas. Basta lembrar dos combates nos porta-aviões ou do ataque sincronizado feito por Asuka e Shinji... não dá para engolir. Em relação aos personagens, o caso é um pouco mais sério. Se existem personagens adoráveis e realistas como Misato Katsuragi, comandante super bem humorada e chegada numa cerveja, ou Ritsuko Akagi, cientista devotada ao trabalho mas bastante emotiva, o mesmo não pode ser dito dos pilotos dos EVA´s. Não digo muito de Rei Ayanami, já que existem razões para o seu comportamento distante, mas Shinji e Asuka são puro clichê. Shinji não sabe fazer outra coisa a não ser reclamar da vida, se fazer de vítima e fugir dos problemas, enquanto Asuka tem lugar cativo entre os maiores "malas-sem-alça" do mundo dos animes, sempre se achando a melhor, a superior, a mais gostosa.

Mas o grande problema de Evangelion é, disparado, o seu final. A série tem um ritmo excepcional até o episódio 24, mas os dois últimos são um caso sério, com um andamento arrastado e confuso e que tem a intenção um tanto pretensiosa de explicar o porquê do vazio existente na alma dos seres humanos. Prefiro não dar detalhes sobre o que acontece nestes episódios, mas basta dizer que a reação do público foi tão negativa que a Gainax acabou realizando o longa-metragem End of Evangelion, que apresenta um final alternativo e mais aceitável.



Neon Genesis Evangelion é uma série realmente muito boa, mas que acaba sendo prejudicada pela pretensão da Gainax em criar uma obra audiovisual complexa o suficiente para mudar o mundo, tão complexa que, ao invés de trazer respostas, deixa o espectador com mais dúvidas na cabeça.


Marcelo Reis


 

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Kareshi Kanojo no Jijou (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 04/05/2002.

Alternativos: Kare Kano, Karekano, His and Her Circumstances
Ano: 1998
Diretor: Hideaki Anno / Kazuya Tsurumaki
Estúdio: Gainax / J.C. Staff
País: Japão
Episódios: 26
Duração: 24 min
Gênero: Comédia / Drama / Romance


Após o sucesso estrondoso de Neon Genesis Evangelion, muita gente se perguntava qual seria o próximo passo da Gainax, personificada pelo genial Hideaki Anno. A lógica indicaria, talvez, que se tentasse uma segunda temporada de Evangelion (garantia de sucesso), mas a Gainax é conhecida por séries que duram apenas uma temporada. Talvez uma outra série de mechas... mas um "shoujo"??

Pois é, a Gainax pulou da viagem lisérgica que era Evangelion e acabou realizando o engraçadíssimo e hilariante Kareshi Kanojo no Jijou (His and Her Circumstances), ou Karekano para os íntimos. Vamos à história...

Miyazawa Yukino é a garota mais popular da escola: inteligente, carismática, bonita, ela é a própria imagem da perfeição, e venerada por todos os estudantes. Seu mundo começa a ruir quando surge na escola Arima Souchiro, um rapaz enigmático e muito inteligente, cuja popularidade rivaliza com a de Miyazawa. Vendo em Arima uma ameaça em potencial a seu reinado na escola, Miyazawa embarca numa missão louca, buscando a todo custo superar Arima, para humilhá-lo e mostrar, de uma vez, quem é a "manda-chuva" na escola. Arima, pelo contrário, admira Miyazawa e nem suspeita das maquinações que a mesma faz por debaixo dos panos... mesmo "derrotado" nas notas das provas, Arima surpreendentemente parabeniza Miyazawa, o que desperta nela um lado até então desconhecido. A partir daí, muita coisa acontece, as máscaras começam a cair, e o que existia de ódio por parte de Miyazawa transforma-se em afeição, em carinho... em amor.


O que diferencia Karekano de grande parte dos "shoujos" é sua autenticidade, além do excelente equilíbrio entre drama e comédia. Algumas seqüências são de matar de rir (literalmente), talvez entre as mais hilárias já feitas para um anime... outras, dramáticas e devidamente embaladas por uma bela trilha sonora, levam lágrimas aos olhos. Em relação à autenticidade, você realmente percebe que o sentimento surgido entre Arima e Miyazawa cresce naturalmente, nada é forçado. Para quem nunca se apaixonou, talvez seja difícil captar a verdadeira emoção desta série... mas, cá entre nós, quem nunca se apaixonou na vida?! ;)

Com coadjuvantes hilários, ótimas histórias paralelas e uma qualidade gráfica excelente para uma série de TV, Karekano é uma série quase perfeita. Eu gostaria muito de lhe dar uma nota máxima, mas algumas coisas me impedem de fazê-lo. Em primeiro lugar, o ritmo da série, perfeito até a metade da série, começa a cair, deixando a apaixonante história de Arima e Miyazawa em segundo plano e focalizando mais as histórias paralelas. Mas o que realmente impede Karekano de ser uma série nota 10 são os irritantes "flashbacks", que acontecem várias vezes em alguns episódios mas atingem o ápice nos episódios 14 e 15... quem assistiu à série, sabe do que estou falando. =( Para completar, parece que houve uma briga feia entre os responsáveis pela série, e o final da mesma acabou sendo feito a toque da caixa.



Ainda assim, Karekano é excepcional! Mostra que a Gainax é realmente uma equipe fora do comum, capaz de realizar obras-primas em qualquer estilo de anime. Se quiser rir até ter dor de barriga, se emocionar ou simplesmente assistir a um dos melhores animes já feitos, não deixe de ver Karekano!


Marcelo Reis



Gunbuster (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 01/01/2004.

Alternativos: Aim for the Top! Gunbuster, Top O Nerae! Gunbuster
Ano: 1988
Diretor: Hideaki Anno
Estúdio: Gainax
País: Japão
Episódios: 6
Duração: 30 min
Gênero: Aventura / Mecha / Sci-Fi


Série de 6 OVA´s, produzida pela Gainax no período 1989-1991, Gunbuster é uma das obras mais cultuadas deste famoso estúdio de animação, e já dava mostras do que viria alguns anos depois, na forma do mega-sucesso Shin Seiki Evangelion. À primeira vista, Gunbuster passa a impressão de ser apenas mais uma entre tantas séries protagonizadas por mulheres gostosas e seus robôs poderosos. Bom, é inegável que isto acontece também, já que a Gainax não desperdiça a chance de abusar dos "fan-services". ^__^ Mas, por trás de todos os clichês comuns aos animes de "mechas", existe uma história excelente, embasada por uma surpreendente coerência científica, especialmente em relação às leis da física.

Noriko Takaya é uma bela e alegre garota cujo pai, comandante da nave Luxion, morrera no espaço após uma batalha com alienígenas, quando ela ainda era criança. Este traumático evento fez com que Noriko decidisse tornar-se piloto, para que pudesse não apenas defender a Terra mas, ainda, combater aqueles que lhe trouxeram tanto sofrimento. O problema é que Noriko, apesar da boa vontade em aprender, é preguiçosa e sonhadora, e acaba não levando os treinamentos tão a sério. Além disto, Noriko é constantemente perseguida pelas colegas, pois muitas acreditam que ela esteja ali apenas pelo prestígio de seu falecido pai, e não por suas qualidades reais. Se levarmos em conta a quantidade de besteiras que ela faz, e a total falta de jeito para controlar os robôs RX, não dá para tirar a razão de suas colegas. ^_^

O surgimento de Kazumi Amano pode mudar as coisas. Considerada a mais brilhante aspirante ao cargo de piloto, Amano é um exemplo para todos. Noriko percebe que Kazumi não se tornou a melhor por acaso mas, sim, porque segue os treinamentos com disciplina e aplicação: mesmo com um talento inato, é preciso trabalhar duro para obter sucesso. O estranho relacionamento que se desenvolve entre Kazumi e Noriko, oscilando entre a amizade e a rivalidade, acaba se tornando a grande atração deste excelente anime.


Apesar de contar com uma animação tradicional, sem nenhum auxílio de computadores, Gunbuster impressiona muito na parte visual, especialmente no tocante ao desenho mecânico das naves e robôs, os quais são animados com uma quantidade incrível de detalhes. A animação humana também é muito boa, apesar de parecer meio "durona" em alguns pontos. Todo o trabalho de arte, feito por Shinji Higuchi e Hideaki Anno (que também dirige a série), é irretocável.

Um aspecto complicado em Gunbuster diz respeito ao humor ridículo utilizado em alguns momentos. De cara, temos uma cena com vários robôs gigantescos fazendo flexões de braço em um pátio; mais tarde, um destes robôs aparece fazendo "jogging" na praia. Sinceramente, por mais ridículas que pareçam, estas cenas têm sentido na história, mas muita gente, infelizmente, acaba desistindo de conhecer o restante da série depois de assisti-las. O que realmente incomoda em Gunbuster são os onipresentes clichês (aêêêêê, acharam que eu não falaria deles? ^__^). É um tal de ciumezinho bobo, disputas ridículas, invejinhas, papos de predestinação, etc. O que dizer da piloto alemã, com o sugestivo nome Jung-Freud (!!!)? Outro problema é que aspectos cruciais da história ficam muito mal-explicados: por que Noriko é tão importante? O que é, afinal, o super-robô Gunbuster, e por que ele é tão fodão?

Mas chega de reclamações! Gunbuster possui qualidades inegáveis, e não vale a pena ficar preso apenas aos defeitos. Como foi dito no início, Gunbuster é um anime espacial que respeita ao máximo as leis da física, especialmente quando fala das relações entre viagens próximas à velocidade da luz e as conseqüentes alterações na relação espaço-tempo. Por sinal, as aulas de ciência, ao final de cada OVA, são um espetáculo à parte! ^__^

O clima da série vai ficando cada vez mais melancólico, culminando com o fabuloso episódio final, feito inteiramente em preto-e-branco. É verdade que alguns problemas permanecem (heroísmo exagerado, explicações muito aceleradas), mas não dá para negar que Gunbuster é um raro exemplo de anime com um final impecável, daqueles que ficam na memória por muito tempo.



Enfim, Gunbuster é uma série excelente, mas que peca pela falta de equilíbrio entre momentos bons e ruins. Na maior parte do tempo, o resultado agrada muito, mas quando a coisa desanda, fica difícil manter-se indiferente. Ainda assim, é um anime muito acima da média e que merece ser conferido, quer você seja um fã da Gainax ou não.


Marcelo Reis


 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

FLCL (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 20/01/2002.

Alternativos: Furi Kuri, Fooly Cooly
Ano: 2000
Diretor: Kazuya Tsurumaki
Estúdio: Gainax / Production I.G.
País: Japão
Episódios: 6
Duração: 30 min
Gênero: Comédia / Drama / Mecha



Simplesmente insano! Esta é a melhor definição para este anime incrível da Gainax, desenvolvido em conjunto com a Production IG. Pegue todas as seqüências malucas de Kare Kano, eleve à enésima potência e multiplique por mil, para chegar perto da quantidade de loucuras e situações surreais presentes neste anime.




FLCL, ou Furi Kuri, é uma série pequena (apenas 6 episódios), se comparada com os usuais 13 ou 26 episódios da maioria das séries de TV. Em compensação, o visual é impressionante, quase inacreditável para uma produção feita para o mercado de vídeo: animação fluida e detalhada, excelente "design" de caracteres, ótimos efeitos em 3D.




A história basicamente gira em torno de Naota, um garoto de 12 anos constantemente assediado pela malucona Samejima Mamimi, namorada de seu irmão mais velho. Meio rebelde e avesso a regras, Naota parece um tanto entediado com a vida (pai maluco, avô pentelho), até que a piradaça Haruko, uma alienígena, aparece em sua vida, de maneira violenta e hilariante! :) A partir deste encontro, a vida destes personagens nunca mais será a mesma (nem a nossa!)!

Muita gente comenta que FLCL é um anime difícil, não recomendado para crianças ou pessoas que preferem histórias contadas de maneira clássica. Na verdade, o grande problema é que grande parte das pessoas não consegue "viajar" de maneira adequada ao assistir a FLCL, tentando arrumar um sentido em todas as situações inusitadas que aparecem. FLCL não funciona desta maneira: é uma montanha-russa de nonsense e situações engraçadíssimas, que deve ser devorado deixando a razão de lado.




FLCL é um anime imperdível. É reconfortante saber que uma empresa do porte da Gainax não se acomodou com o tempo. Ao invés de curtir os louros do sucesso criando séries pasteurizadas e insossas, apenas para ganhar mais dinheiro, a Gainax faz exatamente o contrário, subvertendo regras e criando obras singulares. Que mais FLCL´s venham com o tempo! :)


Marcelo Reis


 

Ebichu (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/09/2005.

Alternativos: Oruchuban Ebichu, Ebichu Minds the House, Ebichu the Housekeeping Hamster
Ano: 1999
Diretor: Makoto Moriwaki
Estúdio: Gainax
País: Japão
Episódios: 24
Duração: 9 min
Gênero: Comédia / Romance / Adulto


Possuidora de um número equivalente de fãs e detratores, a Gainax é provavelmente o mais controverso estúdio de animação do Japão, e Oruchuban Ebichu é um perfeito exemplo para justificar estas reações de amor e ódio perante suas obras. Baseado no mangá original de Risa Itou, Oruchuban Ebichu passou por um verdadeiro calvário antes de se tornar um anime, pois praticamente todos os estúdios de animação japoneses recusaram a oferta de produzir uma obra com aparência infantil mas com imagens e diálogos pesadíssimos sobre sexo do início ao fim. A única produtora que aceitou o risco de produzir o anime sem concessões e sem cortes, logicamente, foi a Gainax.

Produzido em 1999 e exibido na Directv Japan, Oruchuban Ebichu é uma série curtinha, com 24 episódios de 8 minutos cada, e foi originalmente exibida dentro de um programa chamado "Anime Ai no Awa Awa Hour", junto a outros dois animes. O linguajar e o visual utilizado na série é tão forte que só permitiram a exibição do mesmo na TV japonesa após vários cortes drásticos, e apenas após o lançamento do anime em DVD é que se tornou possível assistir a todos os episódios na íntegra.

A história básica é até bem simples. Ebichu é uma hamsterzinha de voz estridente que trabalha como empregada (!) para uma mulher que, apesar de ter atingido a independência financeira trabalhando como secretária, possui um terrível problema em sua vida: ainda não conseguiu um marido, mesmo tendo atingido a perigosa idade de 25 anos, considerada o limite máximo para as mulheres japonesas que ainda querem se casar. Esta mulher, chamada de "Mestra" por Ebichu, possui um namorado tarado e imprestável que se interessa apenas por sexo e não quer nem saber de compromisso. Não por acaso, Ebichu lhe deu o significativo apelido "Kaishounashi", que significa imprestável.

Ebichu faz de tudo para a agradar a sua dona, mas só o que recebe em troca é muita, mas muita pancada na cabeça. Falou bobagem? Porrada! Estragou a roupa? Porrada! Comeu o sorvete ou o queijo camembert sem pedir permissão? Tome porrada! Atrapalhou o momento sublime em que a Mestra e Kaishounashi trocam fluidos corporais, o que, diga-se de passagem, acontece o tempo todo? Porrada dos dois!! E assim segue a vida deste estranho trio, o qual conta com algumas visitas inesperadas de Maa-kun, amigo do casal que acaba se apaixonando perdidamente por Ebichu (!!) e não consegue parar de ter sonhos eróticos (!!!) com a hamsterzinha.


Mesmo sendo de uma simplicidade absurda em todos os aspectos na parte técnica (arte, desenho de personagens, trilha sonora, etc), a animação de Oruchuban Ebichu não decepciona e dá conta do recado sem problema algum. Mas se a parte técnica não é desculpa para afastar o público deste anime, o mesmo não pode ser dito do enredo. Mesmo sem ser visualmente explícito como um "hentai", Oruchuban Ebichu é uma obra na qual não existem limites na hora em que o assunto é sexo. Os diálogos são pesadíssimos, as situações mostradas são cartunescas mas nada sutis, e quem não está acostumado com este tipo de conversa certamente ficará meio assustado ou chocado.

Se não for este o seu caso, é um anime que vale a pena conhecer. Oruchuban Ebichu é hilariante em vários momentos, especialmente naqueles em que o taradão Maa-kun aparece, ou quando Ebichu deixa a "Mestra" sem lugar com as suas incríveis gafes e, ainda, quando a hamsterzinha se transforma em "Ebichuman"! O perfeito trabalho dos "seiyuus" ajuda muito. Ebichu é dublada pela insana Kotono Mitsuishi (Misato Katsuragi em "Evangelion", Excel em "Excel Saga"), usando um jeitinho todo infantil de falar ("dechu", "irachaimache", "goshujinchama") e com aqueles famosos gritinhos esganiçados que arrebentam os tímpanos de qualquer um. A "Mestra" sacana conta com o talento de Michie Tomizawa, famosa por dublar a lerdinha C-Ko Kotobuki em "Project A-KO" e Sailor Mars em "Sailor Moon". Do lado masculino, o hilário Maa-kun fica ainda mais engraçado com a inspiradíssima dublagem de Mitsuo Iwata. Quem se lembra das personalidades de Itsuki (Initial D) e Kintaro Oe (Golden Boy) já sabe do que este talentoso "seiyuu" é capaz. E o tarado "Kaishounashi" possui a voz do não menos cultuado Tomokazu Seki, capaz de convencer na dublagem de personagens tão diferentes quanto Kyo Souma (Fruits Basket) e Shuichi Shindou (Gravitation). Em relação à dublagem, Ebichu é nota 10!

O problema é que, com o tempo, este anime acaba se tornando uma obra de uma piada só, e o que fazia rir no início começa a perder a graça, pois é apenas a repetição de algo que já apareceu várias vezes nos demais episódios. As brigas da Mestra com Kaishounashi, as desculpas esfarrapadas do mesmo para justificar suas traições, as pancadas em Ebichu, a gritaria sem fim da hamsterzinha, tudo começa a ficar meio maçante e monótono a partir de certo ponto.




Este é um anime que deve ser assistido com extremo cuidado. Não dá para ver com toda a família imaginando que sua filhinha vá gostar deste anime com uma hamster tão bonitinha e com uma vozinha tão doce! Oruchuban Ebichu é um anime com visual infantil, humor insano, mas com um tema central 100% adulto e definitivamente proibido para menores. Poderia ter sido muito melhor com piadas menos repetitivas, mas não pode ser considerado um anime dispensável, muito pelo contrário. Só os momentos "Ebichuman" já valem pela série inteira!


Marcelo Reis