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quinta-feira, fevereiro 14, 2013

La Maison En Petits Cubes (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/06/2010.

Alternativos: Tsumiki no Ie; Casa de Pequenos Cubos
Ano: 2008
Diretor: Kunio Katô
Estúdio: Robot
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 12 min
Gênero: Drama



No Oscar 2009, o grande favorito para levar o prêmio como Melhor Curta de Animação era o hilário "Presto", produzido pela Pixar e com direção de Doug Sweetland. E numa das maiores surpresas da noite, quem saiu com o "carequinha dourado" nas mãos foi "La Maison en Petits Cubes", permitindo ainda que seu simpático diretor Kunio Katô, num inglês macarrônico, levasse o público às gargalhadas ao soltar o seu já clássico "domo arigato, Mr. Roboto". Por sinal, foi uma noite e tanto para o público japonês, já que o filme "Okuribito" ("A Partida", lançado no Brasil) levou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, desbancando os favoritos "Entre os Muros da Escola" e "Valsa com Bashir".

Quem assistiu ao "Tortov Roddle" ou pelo menos leu a resenha aqui do Animehaus já sabe que o estilo visual e narrativo de Kunio Katô é bem diferente daquele que normalmente associamos aos animes. Com algumas pitadas de surrealismo, mas bem menos do que em "Tortov", "Petits Cubes" mostra a vida de um senhor muito idoso que passa a vida sozinho em casa, fumando, tomando vinho, assistindo TV e até mesmo pescando num alçapão dentro da sala.

Como assim, "pescando dentro da sala"? Pois é, este senhor mora num mundo praticamente coberto por água, no qual apenas a pontinha de algumas casas fica acima da superfície. Como o nível da água nunca pára de subir, os moradores restantes, incluindo nosso amigo idoso, precisam subir continuamente suas casas, ou elas serão totalmente submersas.


Tudo parece seguir a mesma rotina monótona de sempre, até que um pequeno acidente com seu cachimbo leva o protagonista a uma viagem rumo a seu passado, uma viagem na qual cada porta aberta traz uma lembrança de tempos mais felizes. Um tempo no qual ele não era tão velho, nem tão sozinho, quando o mundo era mais simples, e a vida, mais completa.

Contar muitos detalhes pode estragar a experiência de assistir a esta bela animação que, sem uma única linha de diálogo, consegue ser mais claro e coerente que a maioria dos animes verborrágicos que existem por aí. Usando a mesma técnica de desenho a lápis usada em "Tortov Roddle", a equipe do Studio Robot mais uma vez caprichou no visual, usando um colorido com predomínio de tons marrons na ambientação. A blusa avermelhada do protagonista se destaca, como se quisesse mostrar sua disposição latente de dar uma guinada na vida em meio a um mundo desolado, mesmo que não tivesse mais tanto tempo restante aqui na Terra. A trilha sonora composta por Kenji Kondo, apenas com piano, flauta e violão, é calma e dá o tom perfeito à melancólica e emocionante jornada do personagem principal por seu passado.

Fazendo um paralelo entre a construção de uma casa e da personalidade de uma pessoa, "La Maison en Petits Cubes" mostra como é importante ter uma fundação larga e sólida em ambos os casos. Cada tijolo, no sentido real e figurado, tem importância vital no conjunto da obra e, no caso do protagonista, de uma bela história de vida construída ao longo de anos com sua esposa.



Sem apelar para o melodrama e terminando com um clima de esperança, "La Maison en Petits Cubes" é emocionante, e é mais uma prova de que é possível criar obras-primas com simplicidade, sem enredos muito rebuscados ou com um visual que abusa das animações e efeitos em CGI. Agora, uma curiosidade que não sai da cabeça: se o mundo está assim, tão devastado, de onde vem a energia elétrica para iluminar a casa e ligar a TV de nosso amigo velhinho? ^^"


Marcelo Reis


 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

The Diary of Tortov Roddle (ONA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 25/09/2009.

Alternativos: Aru Tabibito no Nikki
Ano: 2003
Diretor: Kunio Katô
Estúdio: Robot
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 22 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia


Animação lançada originalmente na internet em 2003 pelo pequeno Studio Robot, "The Diary of Tortov Roddle" acabou ganhando notoriedade tardia por obra do destino. Kunio Katô, diretor e animador desta bela obra, venceu o Oscar de Curta-Metragem de Animação em 2009 com a obra "Tsumiki no Ie", mais conhecida como "La Maison en Petits Cubes" e que foi exibida recentemente no Brasil no Anima Mundi 2009, com o nome "Casa de Pequenos Cubos". Com a vitória, muita gente quis saber quem era aquele simpático japonês, cujo discurso carregado de sotaque e finalizado com a impagável frase "Domo arigatô, Mr. Roboto" foi uma das sensações da noite de premiação. Com tantas pessoas pesquisando a vida e as obras de Katô-san, era só uma questão de tempo até que "The Diary of Tortov Roddle" fosse descoberto e apreciado por milhares de pessoas ao redor do mundo.

Tortov Roddle é um viajante da região da Tortália. Elegante, sempre de fraque, cartola e montado num porco gigante e de pernas longas, ele viaja pelos lugares mais bizarros e psicodélicos já vistos. A cada momento, Tortov vê coisas que desafiam a lógica, como cidades construídas nas costas de sapos e chaminés que evaporam os pesadelos das pessoas, e sua saga é contada na forma de pequenas histórias devidamente registradas em seu diário de viagem. Histórias que, convenhamos, se parecem muito com os famosos contos de pescador daqui do Brasil.


Tortov encara as coisas com surpresa, mas rapidamente aceita todas estas loucuras como se fossem algo normal. Mas apesar de sua aparente felicidade, Tortov carrega um ar melancólico, e sua viagem sem destino parece ser, na verdade, uma jornada rumo a um novo alvorecer, uma busca por um futuro melhor.

A primeira coisa que chama a atenção em "Tortov Roddle" é a qualidade de sua animação e a originalidade de seu visual. Esqueçam as imagens comumente associadas a animes, com personagens de cabelos estilizados e olhos enormes. "Tortov Roddle" tem um visual mais parecido com as animações produzidas no Leste Europeu, com traços clássicos feitos à lápis e cores em tons pastéis, com predominância quase total do verde e do marrom. A animação é delicada e muito bem feita, com uma atenção especial voltada às pequenas nuanças de expressão facial dos personagens, quase todos bem longilíneos. A música de fundo, instrumental e bem suave, complementa a parte visual, passando a sensação de um mundo ao mesmo tempo fantástico e melancólico.

A "série" original, digamos assim, é composta por seis pequenos trechos que totalizam meros 16 minutos. Com o lançamento de "Tortov Roddle" em DVD, foi lançado um pequeno OVA adicional de 6 minutos chamado "Red Berry", engraçadíssimo e com um colorido mais variado e alegre.




É sempre bom assistir a uma animação independente, quer seja do Japão ou de qualquer outro país, pois geralmente os animadores compensam a falta de verbas com muita criatividade e liberdade de expressão. Vale a torcida para que o Oscar ganho por Kunio Katô não mude estas características, e que suas obras futuras sempre continuem com este forte teor autoral.


Marcelo Reis