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quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Macross Plus (OVA)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 15/04/2006.

Ano: 1994
Diretor: Shoji Kawamori
Estúdio: Triangle Staff / Dr. Movie
País: Japão
Episódios: 4
Duração: 40 min
Gênero: Sci-Fi / Drama / Mecha


Com o sucesso absoluto de Macross TV desde o seu lançamento em 1982, era quase inevitável que, assim como ocorreu com a franquia Gundam, surgissem continuações e "spin-offs" com o nome Macross, não apenas para saciar a sede dos fãs mas, logicamente, para que os produtores e criadores faturassem mais uma graninha. Se Macross 7 chega a ser uma afronta ao espírito original da série, o mesmo não pode ser dito de Macross Plus, magnífica série de 4 OVAs lançada em 1994. E o melhor: ainda que uma certa experiência com o universo Macross seja recomendada para o melhor aproveitamento do enredo, Macross Plus pode ser assistido sem medo mesmo por pessoas que nunca se ligaram muito na série de 1982.

A história de Macross Plus se passa em 2040, 40 anos após os acontecimentos da série original e 30 anos após um cessar-fogo entre humanos e Zentraedis. Uma tecnologia avançadíssima permitiu a criação de naves controladas mentalmente, um filão que promete ser altamente lucrativo nos anos que virão. Duas grandes empresas do ramo de aviação militar, General Galaxy e Shinsen Industries, disputam uma concorrência para ver quem ganhará o polpudo contrato oficial para produção em série das naves.

No Centro de Treinamento de Pilotos do Planeta Eden são discutidos os detalhes desta disputa. O humano Isamu Dyson, excelente piloto sem papas na língüa e "boyzinho" de carteirinha, ficará no comando do YF-19 produzido pela Shinsen Industries, enquanto Guld Bowman, piloto meio-humano e meio-Zentraedi, pilotará o YF-21 da General Galaxy.

Enquanto isto, são feitos os preparativos para a mega-turnê da cantora Sharon Apple no Planeta Eden. Sharon Apple é uma cantora 100% virtual: desde o visual até as músicas, nada nela é real, tudo é gerado por um poderoso computador. A gerente da turnê de Sharon Apple é Myung Fang Lone, uma bela mulher que gostava de cantar quando jovem, época em que ela, Isamu e Guld eram grandes amigos. Algo de muito sério aconteceu entre os três naquele tempo, uma vez que Guld, desde então, passou a considerar Isamu um traidor. A disputa entre as empresas, desta forma, passa a ser também algo pessoal entre ambos.

As coisas começam a se complicar quando Sharon Apple dá mostras de que pode ser muito mais do que aparenta. O transe quase hipnótico no qual o público entra durante as apresentações é algo meio assustador, e a evolução dos fatos pode levar Myung, Isamu e Guld a enfrentar situações inesperadas e perigosas que podem afetar completamente a vida de todos no Planeta Eden.


Macross Plus é um verdadeiro "tour-de-force" de Shoji Kawamori (Escaflowne, Arjuna), responsável aqui pela história original, direção, "storyboard" e desenho mecânico, todos realizados com extrema competência. A qualidade final do anime ainda ganhou uma turbinada boa com a participação de colaboradores ilustres como Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop, Samurai Champloo), responsável não apenas pelo "storyboard" ao lado de Kawamori mas, ainda, pela função de diretor-assistente. Se completarmos a lista com Keiko Nobumoto (Bebop, Wolf's Rain) no roteiro, Yoko Kanno (Escaflowne, GITS-SAC) na trilha sonora e outros nomes menos famosos mas nem por isto menos importantes no mundo da animação, temos uma equipe capaz de criar algo realmente acima da média.

E eles não decepcionaram os fãs. Apesar de ser basicamente um baita anime de ação, Macross Plus ainda se dá ao direito de comentar sobre a cada vez mais atual preocupação acerca da evolução da Inteligência Artificial, se isto poderia se tornar um risco real para uma sociedade cada vez mais informatizada. Além disto, o relacionamento entre os três outrora grandes amigos vai se revelando com grande força e sinceridade, e a preocupação do espectador com o destino de cada um é genuína, até mesmo porque a caracterização de cada um é bem convincente, tudo isto auxiliado pelo maravilhoso desenho de personagens de Masayuki (Duel Masters, animação em Kimagure Orange Road).

Yoko Kanno, para variar, dispensa comentários, com mais uma trilha impecável que conta com pelo menos 3 músicas inesquecíveis: Santi-U, a belíssima Voices (a qual traz ecos do passado) e a arrepiante Information High, um "techno" de 8 minutos que toca em um momento crucial do anime. O trabalho de arte de Katsufumi Hariu (Noein, Akira) também merece destaque, com excelentes idéias visuais e conceituais para um futuro que não está assim tão distante dos dias atuais.

E o que dizer da animação? Mesmo após 12 anos de sua produção, Macross Plus continua a impressionar pela fluidez impressionante da animação, a qual não deixa nada a dever para nenhuma produção animada lançada nos cinemas. Tanto é verdade que existe uma versão "movie" de Macross Plus, na qual algumas cenas dos OVAs foram cortadas mas que, em contrapartida, contou com a adição de cenas inéditas. Alguns preferem a versão OVA, outros a versão "longa-metragem"... como conheço apenas a primeira, os comentários da resenha dizem respeito apenas ela. E, apenas como curiosidade, o estúdio responsável pela animação principal de Macross Plus, DR. MOVIE (Pretear, Arislan) não é japonês mas, sim, sul-coreano.

Como foi dito acima, Macross Plus é um baita anime de ação com conteúdo, mas, se por um lado, as cenas de batalhas estão entre as melhores já mostradas em um anime, por outro o roteiro sofre com problemas comuns a outras obras de ação. Ao longo dos episódios os problemas surgem de forma mais espaçada mas, rumo ao final, o roteiro perde o controle completamente, com muitas situações bestas e piegas ao extremo, batalhas exageradíssimas que fogem do tom mais realista da obra como um todo, aqueles famigerados clichês que me perseguem e soluções ridículas para certos problemas. E isto sem contar certos atos perpetrados por alguns personagens, absolutamente injustificáveis do ponto de vista racional.



Mas tudo é válido perante a excelência do conjunto da obra. Macross Plus merece ser conhecido por qualquer fã de animes, especialmente aqueles que gostam de uma boa obra de ação mas que também procuram algo mais do que um simples show de fogos de artifício. E é sempre bom ver uma obra que não envelhece com o passar dos anos, prova da capacidade de seus criadores em oferecerem um produto realmente atemporal em conteúdo e técnica.


Marcelo Reis


 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Earth Girl Arjuna (TV)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 11/06/2003.

Alternativos: Chikyuu Shoujo Arjuna, Arjuna - A Deusa do Tempo
Ano: 2001
Diretor: Shoji Kawamori
Estúdio: Satelight
País: Japão
Episódios: 13
Duração: 23 min
Gênero: Aventura / Drama / Sci-Fi



É muito bom encontrar animes que vão muito além do simples entretenimento, com mensagens que realmente nos fazem pensar e refletir sobre a vida. Earth Girl Arjuna é uma obra de forte cunho ecológico, que questiona não apenas a maneira errada com que lidamos com o meio-ambiente no mundo civilizado mas, também, o modo de vida robotizado e carente de emoções da maioria das pessoas.

Mais um excelente anime criado pelo genial Shoji Kawamori (Escaflowne, Macross), Earth Girl Arjuna foi lançado no Japão em 2001, e conta a história de Juna Ariyoshi, uma bela estudante japonesa, possuidora de grande vigor físico e espírito jovial. Juna possui uma enorme afinidade mental e espiritual com seu colega Tokio Ooshima, mas, por alguma razão oculta, ambos não conseguem passar do estágio de amizade para namoro.

Certo dia, durante um passeio, ambos sofrem um acidente e, em conseqüência dos ferimentos, Juna morre. Nesta transição entre o mundo físico e espiritual, Juna visualiza o fim do mundo, com uma quantidade interminável de enchentes, queimadas, entre outras catástrofes. Durante este processo de morte, Juna entra em contato com um ser angelical chamado Chris, que lhe explica algumas coisas sobre os Raajas, espíritos malignos que querem destruir a Terra. Juna descobre, ainda, que ela é considerada um Avatar do Tempo, com a capacidade única de sincronizar-se com a Terra e, assim, utilizar todos os seus poderes latentes. Juna renasce, com a difícil missão de conciliar a luta contra os Raajas com a sua vida normal de outrora, especialmente em relação aos seus sentimentos por Tokio.

Earth Girl Arjuna é uma obra muito pessoal de Shoji Kawamori. Além da história, Kawamori também dirigiu e supervisionou todo o projeto, e inseriu muitas de suas convicções religiosas ao longo do anime. Shoji Kawamori é adepto do Xintoísmo, religião nacional do Japão que existia muito antes da inserção do Budismo dentro do país. Os xintoístas cultuam os antepassados e as forças da natureza, e acreditam que todas as coisas possuam seus próprios espíritos. Algumas destas idéias estão presentes de forma bem evidente em Earth Girl Arjuna... este assunto entrará em pauta novamente, mais à frente.

Em relação à equipe de produção, Earth Girl Arjuna contou com um time de peso. Além do próprio Shoji Kawamori, que dispensa comentários, Arjuna contou também com o excelente trabalho de Takahiro Kishida, desenhista de personagens que atuou na mesma função em Serial Experiments Lain. Na parte sonora, só para variar, mais um trabalho brilhante da inigualável Yoko Kanno. Em Arjuna, Kanno criou uma trilha magnética, repleta de músicas "new-age" com algumas pitadas de sons eletrônicos, que dão o tom exato às imagens psicodélicas que aparecem na tela. Vale destacar, também, o fabuloso trabalho de animação digital feito pelo estúdio Satellite... algumas cenas são de babar!


Costumo bater muito na mesma tecla, dizendo que um bom roteiro e personagens carismáticos são a alma de qualquer obra audiovisual, e Earth Girl Arjuna não foge à regra. Os dramas vividos pelos seus personagens são convincentes, e as reações dos mesmos frente às adversidades não caem nos clichês e lugares-comuns. Além dos excelentes personagens principais Juna, Tokio e Chris, merecem destaque a poderosa agente Teresa Wong, e Saiyuri, amiga inseparável de Juna e Tokio.

Mas é a história o verdadeiro tesouro desta série. Mesmo tendo uma trama surreal como pano de fundo, Earth Girl Arjuna ataca de maneira bem realista os excessos da sociedade civilizada e tecnológica dos dias de hoje. Poluição, uso abusivo de pesticidas, energia nuclear, pesquisas genéticas realizadas sem princípios morais, alimentação errada, dependência química... estes são apenas alguns dos temas delicados discutidos neste anime. Não há como ficar indiferente ao percebermos que, por trás de todo o conforto e bem-estar que desfrutamos, existe um preço muito alto a ser pago, desde a destruição e contaminação indiscriminada do meio-ambiente, até o surgimento de doenças humanas cada vez mais violentas e misteriosas.

Outro ponto interessante diz respeito ao vazio espiritual de grande parte das pessoas, que preocupam-se apenas em viver o dia-a-dia de forma rotineira e desinteressante, aceitando toda e qualquer informação que recebem da mídia e vivendo como autômatos, sem consciência dos problemas à sua volta. Prestem atenção no excelente episódio com o Prof. Sakurai, uma verdadeira aula sobre a tendência dos seres humanos em buscar sempre a forma mais fácil para resolver os problemas, mesmo que isto traga conseqüências graves para o futuro.

E aqui voltamos à questão do Xintoísmo. É preciso assistir a Earth Girl Arjuna com a cabeça aberta e o espírito crítico alerta, já que grande parte das idéias expostas no anime são transcrições quase literais do ideal xintoísta. Claro que isto não é uma coisa ruim, de "per se", principalmente em uma série que quer apenas conscientizar as pessoas sobre a necessidade de modificar alguns hábitos nocivos. O problema é que, sendo muito calcado em uma religião, Earth Girl Arjuna pode ser visto com desconfiança por pessoas que seguem outras crenças, o que seria uma pena, já que a mensagem expressa por este anime é universal e não fere as convicções religiosas de ninguém.

Do lado negativo, temos a acentuada quebra no ritmo em alguns momentos e a postura às vezes extremista em relação a certos aspectos da civilização, que acabam tirando um pouco da força desta série. As cenas com Ashura, o protetor do tempo que é ativado pela mente de Juna, parecem deslocadas, e não se encaixam com o clima proposto pelo anime. E o final, apesar de interessante, é um pouco corrido, e algumas explicações não convencem muito. Ainda assim, o clima de desolação que vai se desenhando é mais do que suficiente para causar o impacto necessário.



Earth Girl Arjuna não é uma série para todos. Se você é uma pessoa extremamente cética e materialista, ou se está mais acostumado a séries com ritmo vertiginoso, talvez não aprecie este anime. Por outro lado, se procura alguma obra mais profunda, que desperte a mente para novas idéias, Earth Girl Arjuna foi feito para você! ^__^


OBS: Arjuna é o nome de um personagem masculino do famoso "Bhagavad Gita", talvez o mais importante texto do Hinduísmo. O "Bhagavad Gita" é, na verdade, um capítulo do antológico "Mahabharata", épico cuja história gira em torno da batalha entre dois primos para saber quem tem o direito de governar os subordinados. No caso do Bhagavad Gita, Arjuna é um príncipe dividido entre os conselhos do Deus Krishna, segundo os quais ele deve lutar na batalha do Mahabharata, ou fugir da guerra, para evitar que ele seja responsável pela morte de pessoas queridas, como seu professor Drona ou seu tio Brishma.


Marcelo Reis