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segunda-feira, abril 24, 2017

Vidas ao Vento (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/04/2017

Alternativos: The Wind Rises, Kaze Tachinu
Ano: 2013
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 126 min
Gênero: Drama / Romance / Histórico



Acredito que esta será uma das resenhas mais difíceis de escrever, pelos mais variados motivos. Primeiro, porque apesar das declarações de aposentadoria de Hayao Miyazaki serem algo quase folclórico - primeiro, após dirigir "Princesa Mononoke", e depois, após terminar "A Viagem de Chihiro" - tudo leva a crer que "Vidas ao Vento" talvez seja realmente seu último filme. Se bem que esta matéria em inglês  já desmente tudo também, e voltamos à estaca zero... eita, vida complexa!

Outro motivo que dificulta sobremaneira a elaboração deste texto é o personagem principal desta obra, Jiro Hoshikori, engenheiro-chefe responsável pela criação de vários caças japoneses usados na 2ª Guerra Mundial, em especial os lendários Mitsubishi A6M Zero, que causaram enormes estragos nas tropas aliadas, além de serem tristemente famosos ao final da Guerra por terem sido usados nas operações dos pilotos "kamikazes". Houve muitos protestos ao longo da produção deste anime e após o seu lançamento, criticando Miyazaki e o Ghibli por retratarem alguém que, na opinião de muitas pessoas, deveria ser considerado um criminoso de guerra, já que suas criações causaram muito sofrimento, destruição e mortes, inclusive entre os próprios japoneses.

Nem comecei a resenha pra valer, e ainda preciso falar do 3º motivo de muita controvérsia em relação a "Vidas ao Vento": as licenças poéticas e artísticas exageradas em relação à vida real de Jiro Hoshikori. Falarei mais sobre isto ao longo da resenha, mas basta dizer que alguns eventos cruciais e super emocionantes da história, na verdade, nunca aconteceram. Quando parte da força destes eventos está justamente no fato de teoricamente terem acontecido na vida real, fica uma sensação meio desagradável de manipulação emocional descarada.

Enfim, como já foi mencionado acima, "Vidas ao Vento" é um relato ficcional da vida de Hoshikori, que inicialmente sonhava em ser piloto, mas nunca poderia conseguir isto em função de sua forte miopia. Apaixonado por aviões desde criança, Hoshikori lia revistas em inglês sobre aviação, usando o dicionário de seu irmão para conseguir entender o que estava escrito ali. Seu ídolo maior era Giovanni Caproni, um projetista de aviões italiano com o qual sonhava frequentemente e que agia, em seus sonhos, como um mentor espiritual do "jovem japonês".

A narrativa acompanha várias etapas da vida de Hoshikori, desde seu período de estudos como engenheiro aeronáutico na Universidade Imperial de Tóquio, passando pelo acidente de trem sofrido durante o impressionante terremoto de Kantô em 1923 que arrasou Tóquio, sua ascensão meteórica na indústria aeronáutica japonesa e todo o processo gradativo que culminou na criação de sua obra-prima, o famoso caça Zero. Considerado um verdadeiro gênio, Hoshikori possuía algumas características que, hoje em dia, provavelmente o colocariam dentro do espectro autista: interesse extremo por determinado assunto, capacidade incrível de concentração, um tom de voz meio monotônico e sem expressão, um certo desleixo com as obrigações sociais, entre outras coisas. Hideaki Anno, diretor de Evangelion, ficou a cargo da dublagem de Horikoshi, e apesar de muita gente ter execrado o seu trabalho, confesso ter gostado bastante do resultado: sua voz inexpressiva se encaixou como um luva na personalidade do protagonista.

Quem está acostumado ao estilo mais fantástico das obras de Miyazaki provavelmente estranhará a atmosfera totalmente realista de "Vidas ao Vento", além de seu ritmo lento. Os momentos de fantasia típicos de Miyazaki aparecem com força total nos sonhos de Hoshikori, e por estarem sempre ligados a aviões e vôos deslumbrantes, nos fazem lembrar imediatamente de grandes cenas aéreas em obras como "Laputa", "Nausicaä" e especialmente "Porco Rosso". Uma curiosidade: um dos aviões criados por Caproni chamava-se Ca.309 Ghibli, e certamente não foi à toa que Miyazaki escolheu este projetista como "mentor" de Hoshikori.


Mesmo em meio a tantas obras visualmente impecáveis do Ghibli, "Vidas ao Vento" se destaca como uma das mais impressionantes. Como em outras animações do estúdio, a atenção aos detalhes mais sutis de movimentação dos personagens beira a obsessão, e as cenas de vôo oferecem momentos de pura poesia visual. Mas nada se compara à estupenda cena do terremoto de Kantô, especialmente pelo contraste com a tranquilidade retratada poucos momentos antes, durante a viagem de trem, quando Horikoshi conhece Naoko Satomi, sobre a qual falarei mais à frente. Toda a sequência é um primor de execução e direção, e apesar do terremoto propriamente dito ser bem rápido, a tensão só aumenta em função do perigo iminente, resultante dos incêndios galopantes que se alastraram por Tóquio e Yokohama. Vale lembrar que mais de 140 mil pessoas morreram à época, especialmente por causa dos incêndios, desabamentos e de um "tsunami" que varreu a região.

Muitas vezes os tradutores arruínam o título de obras ao traduzi-las para o idioma local, mas tenho que admitir que "Vidas ao Vento" foi uma jogada de mestre, pois retrata perfeitamente o que se passa na obra. E o vento é um elemento crucial neste anime, estando sempre presente nos momentos-chave da narrativa, como se realmente brincasse e jogasse com aquelas vidas em cena, tão pequenas e, ao mesmo tempo, tão belas e humanas.

"Vidas ao Vento" é um filme para pessoas pacientes, que certamente se sentirão recompensadas com a bela jornada de Jiro Hoshikori, especialmente na área pessoal, e é aqui que duas das controvérsias citadas no início marcam presença.

Grande parte das críticas a "Vidas ao Vento" diz respeito à criação de um filme que homenageia uma pessoa responsável por máquinas destruidoras, retratando-o de forma muito positiva, quase hagiográfica. De certo modo, concordo parcialmente com estas críticas, já que Jiro Hoshikori é mostrado sempre como um pacifista, que gostaria apenas de criar aviões de passeio, mas cujo amor incondicional por estas máquinas voadoras o levou, de certo modo, a fazer um pacto com o diabo. Por mais que Horikoshi não quisesse tomar parte naquela guerra, é difícil imaginar que ele não soubesse o estrago e o sofrimento que suas criações causariam.

Tendo dito isto, não concordo com as críticas feitas à criação do filme em si. Seria como protestar contra a criação de um filme baseado na vida de J. Robert Oppenheimer por ter sido o "pai" da bomba atômica, ou de Andrei Sakharov por ter sido o pai da bomba H soviética, como se estas pessoas e suas criações se fundissem em uma coisa só e não houvesse toda uma vida, toda uma existência complexa ligada a cada uma delas. Caramba, se até Adolf Hitler foi retratado de forma mais humana em "A Queda", por que Jiro Horikoshi não mereceria esta chance? Humanizar um personagem histórico, por mais execrável que tenha sido, não significa minimizar sua responsabilidade mas, sim, mostrar que por trás daquela "persona", havia um ser humano que, pelos mais variados motivos, seguiu um rumo que a grande maioria talvez não seguisse.

A outra controvérsia que, para mim, prejudicou bem mais a apreciação final de "Vidas ao Vento", foi a introdução e/ou alteração de vários eventos em uma obra que, teoricamente, deveria ser menos ficcional e mais biográfica. Não vou entrar em muitos detalhes para evitar spoilers - e recomendo a leitura deste artigo em inglês para maiores detalhes: http://the-artifice.com/the-wind-rises-2013-fact-fiction/ - mas quando se sabe que todo e qualquer evento relacionado à personagem Naoko Satomi nunca aconteceu na vida real, sendo que ela sequer existiu, grande parte da emoção se esvai. Não acho obrigatório que uma obra baseada na realidade siga à risca o que aconteceu, mas no caso de "Vidas ao Vento", o que acontece entre Hoshikori e Satomi se torna tão pungente e emocionante justamente porque ficamos a imaginar como foi passar por tudo aqui na vida real. Se "Vidas ao Vento" fosse uma obra 100% ficcional, eu realmente não diria nada, mas sendo teoricamente uma biografia, senti que todos estes eventos foram inseridos apenas para manipular emocionalmente o espectador, sem a menor cerimônia.



Ainda assim, considero "Vidas ao Vento" uma das melhores obras de Miyazaki. Sei que muita gente se decepcionou, achando o anime maçante, enfadonho e piegas, mas pelo menos pra mim, foi muito bom ver uma obra um pouco mais realista de Miyazaki. "Princesa Mononoke" ainda é meu xodó máximo no universo de Miyazaki, mas "Vidas ao Vento" vem ali, coladinho, disputando o 2º lugar com "A Viagem de Chihiro" e "Meu Amigo Totoro".


Marcelo Reis


 

segunda-feira, novembro 24, 2014

Ponyo - Uma Amizade Que Veio do Mar (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 24/11/2014

Alternativos: Gake no Ue no Ponyo, Ponyo on the Cliff by the Sea
Ano: 2008
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 101 min
Gênero: Aventura / Magia / Fantasia



Após a recepção morna de público e crítica ao longa-metragem "Gedo Senki", com o qual seu filho Gorô Miyazaki estreou como diretor, Hayao Miyazaki voltou à ativa com este delicioso "Ponyo", provavelmente o longa-metragem mais infantil produzido pelo Studio Ghibli. Ainda que levemente inspirado no conto "A Pequena Sereia", de Hans Christian Andersen, "Ponyo" é uma criação original de Hayao Miyazaki, que assumiu ainda as funções de roteirista e diretor na produção deste anime. E como acontece com quase toda animação produzida pelo Studio Ghibli, "Ponyo" foi um sucesso arrasador nas bilheterias japonesas, além de ter vencido em várias categorias no Tokyo Anime Awards 2009 e no 32º Japan Academy Prize Association.

Uma peixinha dourada com cara de gente vive numa pequena redoma submarina ao lado do pai, um cientista-mago chamado Fujimoto, e suas várias irmãzinhas mais jovens e minúsculas. Brunhilde, a tal peixinha, adora dar umas escapadinhas da tal redoma e, montada nas costas de alguma água-viva, subir até a superfície para tomar um delicioso banho de sol.

Numa destas escapadelas, alguns acontecimentos acabam levando Brunhilde até a beira de um penhasco, no alto do qual moram o garoto Sousuke e sua mãe Lisa. Ao descer até a beira do mar para brincar na água com seu barquinho de brinquedo, Sousuke vê aquela manchinha avermelhada e aparentemente desmaiada na água... e deste encontro casual surge uma bela amizade entre o garoto e aquela peixinha um tanto estranha, agora chamada de Ponyo por Sousuke.

Em "A Pequena Sereia", a personagem-título quer se transformar em humana para poder viver ao lado de seu grande amor, mesmo correndo o risco de morrer no processo. Em "Ponyo" acontece mais ou menos o mesmo, ainda que o amor aqui seja algo mais pueril. No afã de se tornar humana para poder curtir a vida ao máximo ao lado de seu amigo Sousuke, Ponyo está disposta a tudo, mesmo que os efeitos decorrentes deste ato possam ser literalmente catastróficos.



Um anime do Ghibli é sempre garantia de deixar o espectador de queixo caído com o visual arrebatador, e "Ponyo" não é uma exceção. A sequência de abertura dura aproximadamente 5 minutos, e sem uma única linha de diálogo, mostra toda a riqueza e abundância de vida submarina; a redoma em que moram Fujimoto, Brunhilde e suas irmãs; a cumplicidade que reina entre elas; e a satisfação de Brunhilde ao sentir os primeiros raios de sol. Tudo isto, claro, com aquela perfeição e complexidade visual que se tornaram marcas registradas do Ghibli.

Mas não é apenas nas imagens grandiosas que o Studio Ghibli impressiona - e grandiosidade é o que o não falta neste anime, em especial durante certos eventos ligados a tempestades. Pessoalmente, o que mais me marca nas animações do Ghibli é a atenção aos detalhes mais sutis. Por exemplo, quando Sousuke se encontra pela 1ª vez com Brunhilde/Ponyo, toda a movimentação do garoto é sublime: da expressão facial de curiosidade à retirada delicada dos sapatos dos pés antes de entrar na água, é tudo tão incrível que dá vontade de ver e rever a cena por várias vezes, só para pegar as sutilezas em cada detalhe. Um outro momento ocorre durante uma fortíssima tempestade (mais um show de animação, por sinal), e Lisa e Sousuke estão pegando o carro para voltar para casa. Na hora em que a chuva cai nos vidros, a animação, os efeitos sonoros... é tudo tão incrível que até sentimos o peso da água sobre o carro. Senti meus olhos brilhando na hora, o queixo caindo, a baba escorrendo e aquele "uau..." saindo quase num sussurro. :)

Hayao Miyazaki conta com seus habituais parceiros do Ghibli nesta produção. Joe Hisaishi cria mais uma excelente trilha sonora, alternando temas mais fortes e sombrios com outros mais alegres e festivos, inclusive prestando uma homenagem à "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner - o nome Brunhilde sendo uma clara alusão à sua ópera "O Anel dos Nibelungos". Katsuya Kondo fica mais uma vez a cargo do desenho de personagens com aquelas características tipicamente "Ghiblianas", que passam a impressão de já termos visto aqueles traços anteriormente, mas com cada personagem possuindo algum detalhe que o diferencia claramente dos demais. Katsuya Kondo é ainda diretor de animação e, convenhamos, em se tratando do Studio Ghibli, desnecessário falar alguma coisa a mais, né?

Como em outras obras de Miyazaki, não há um vilão de verdade em "Ponyo". Há algumas mensagens espalhadas aqui e ali sobre a humanidade estar colocando em risco o planeta com a poluição e a sujeira, e até a intenção de determinado personagem de limpar o planeta dos seres humanos, para que a natureza possa tomar conta e devolver a Terra a seu esplendor de outrora. Mas nada de personagens que representem o mal supremo e que queiram destruir a Terra apenas por prazer e satisfação pessoais. E chega a ser engraçado ver a tranquilidade com que as pessoas encaram certos eventos cataclísmicos ao longo do anime: se trata de um anime infantil com elementos fantásticos, claro, mas é preciso ligar a "suspensão da descrença" em modo máximo em alguns momentos, pois é realmente muito difícil imaginar um comportamento tão calmo e ordeiro da população perante a situação em que se encontram.

Méritos ainda para Miyazaki por criar um roteiro que não apenas cativa o espectador desde o início mas, ainda, possui personagens carismáticos com os quais nos preocupamos de verdade. Os relacionamentos são sinceros e convincentes, e isto é vital para que "Ponyo" não caia na armadilha tão comum a vários longas-metragens de animação, que abusam do deslumbre visual e sonoro para ocultar defeitos claros no que mais importa, que é a história.



"Ponyo" é mais uma excelente obra do Studio Ghibli, ainda que, pessoalmente, eu o coloque um degrauzinho abaixo de outros animes infantis do estúdio, como "Kiki's Delivery Service" e "Meu Vizinho Totoro". Mas por se tratar do Ghibli, não é preciso pensar demais para saber que mesmo um anime, digamos, "imperfeito" do estúdio ainda é superior a praticamente 99% do que é produzido por aí.


Marcelo Reis


 

sexta-feira, março 01, 2013

Sen to Chihiro no Kamikakushi (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2003.

Alternativos: Spirited Away, A Viagem de Chihiro
Ano: 2001
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 125 min
Gênero: Aventura / Drama / Fantasia


Escrever sobre um anime tão badalado é uma tarefa complicada, já que a enorme quantidade de informações e textos disponíveis sobre o mesmo torna quase impossível a missão de produzir uma crítica realmente interessante e diferente. De qualquer maneira, vale a pena encarar o desafio... uma obra tão genial quanto Sen to Chihiro no Kamikakushi (2001) merece este "sacrifício"! ^__^" Afinal, não é todo dia que um filme de animação consegue obter uma repercussão tão grande, conquistando prêmios de suma importância entre a comunidade cinematográfica, como o Urso de Ouro na Berlinale 2002 (junto ao filme irlandês "Domingo Sangrento"), o Oscar de Melhor Longa-Metragem de Animação, melhor filme pelo National Board of Review e melhor filme do ano no Japão, entre outros. Para completar o cenário, Sen to Chihiro no Kamikakushi faturou mais de 200 milhões de dólares apenas no Japão, se tornando a maior bilheteria da história deste país e superando o até então imbatível Titanic.

Nada mal para uma obra que, teoricamente, não deveria nem mesmo existir. Como foi dito na "review" de Whisper of the Heart, a intenção de Hayao Miyazaki era abandonar a direção de animes, após Mononoke Hime, dedicando-se apenas à produção das obras do Studio Ghibli. Mas, de acordo com o próprio Miyazaki, a mudança de planos ocorreu quando percebeu que as garotas japonesas, ao contrário dos garotos, não tinham uma heroína de personalidade marcante na qual pudessem se espelhar. Chihiro, uma personagem de espírito forte, decidida e que corre atrás das soluções para seus problemas, foi criada para servir de modelo às meninas japonesas, inspirando-as a lutar pelos seus ideais de maneira mais ativa.

Chihiro sentia que seu dia não seria nada bom. A indesejável mudança para aquele "fim-de-mundo" já havia azedado o seu humor desde cedo, e nem mesmo a boa disposição de seus pais conseguia mudar o seu astral. O fato de seu pai se perder na estrada e quase arrebentar o carro numa misteriosa casa, isolada no meio da mata, veio apenas temperar com um pouquinho de vinagre vencido o já amargo humor de Chihiro.

Curiosos, seus pais resolvem entrar nesta casa, e nem mesmo os veementes protestos da filha os demoveram desta idéia. A casa servia de caminho rumo a uma belíssima e bucólica paisagem, na qual se encontrava uma misteriosa vila, repleta de restaurantes, mas completamente vazia. Atraídos pelo cheiro delicioso que vinha desta vila, os pais de Chihiro chegam a um local repleto das mais deliciosas iguarias, e não resistem à tentação. Chihiro, fula da vida, recusa a comida e resolve caminhar pelas ruelas, para dar uma espairecida. A pobre garota mal podia imaginar as mudanças que o simples cair da noite traria à sua vida. A vila, antes desabitada, ganha vida e luzes, e as ruas ficam repletas de seres estranhos e assustadores. Desesperada, Chihiro tenta retornar aos seus pais, e descobre que eles foram transformados em gigantescos porcos!


Perdida num ambiente fantasmagórico, habitado por seres que odeiam os humanos, e sem poder contar com o suporte dos pais, Chihiro só não entra em parafuso devido à providencial ajuda de Haku, um belo rapaz que se diz seu amigo e que tenta, na medida do possível, ajudar Chihiro a entender a situação em que se encontra. Para salvar seus pais e poder retornar com segurança ao seu mundo, Chihiro precisa deixar sua infância de lado e ingressar de cabeça num mundo duro e cruel, trabalhando pesado e enfrentando as adversidades como "gente grande".

Nitidamente inspirado em "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, Sen to Chihiro no Kamikakushi é ainda mais encantador que a famosa obra do escritor inglês. Com argumento, roteiro e direção de Hayao Miyazaki, este anime consegue um admirável equilíbrio entre humor, drama, poesia e terror, e realiza a proeza de agradar a adultos e crianças com a mesma intensidade. Mais notável é perceber que a genialidade de Miyazaki permitiu que um anime repleto de referências e personagens intrinsecamente japoneses pudesse ser assimilado sem dificuldades também pelo público ocidental. Miyazaki nos mostra, ainda, que sua genialidade está longe de demonstrar sinais de cansaço... a criatividade presente em todos os aspectos desta obra são de se admirar, desde os magníficos e detalhados cenários até os surreais habitantes deste universo alternativo.

Em termos de animação, Sen to Chihiro no Kamikakushi conseguiu a proeza de superar até mesmo a qualidade do fantástico Mononoke Hime. Como sempre, são nos detalhes que o Studio Ghibli mostra sua força... as perfeitas nuances de expressão, os movimentos corporais (alguém falou em Kamaji? ^^" ), a interação dos personagens com os cenários, tudo é impecável! A trilha sonora de Joe Hisaishi, parceiro costumaz de Hayao Miyazaki, é o complemento perfeito para este verdadeiro banquete visual.

Para quem anda apregoando aos quatro ventos que a animação tradicional morreu, um lembrete: o mundo da animação não vive apenas de Disney e Dreamworks. Se os estúdios americanos não conseguem sair da mesmice ao criar animações tradicionais, isto não diz respeito ao estilo visual das produções mas, sim, à fraca qualidade das histórias. As obras da Pixar são um sucesso não apenas pelo visual 3D mas, principalmente, pelas excelentes histórias. O mesmo vale para as obras do Studio Ghibli, no tocante à animação tradicional.



Com personagens memoráveis como a própria Chihiro, a cabeçuda feiticeira e "manda-chuva" Yubaba, o semi-aracnídeo Kamaji, o carismático Haku e o misterioso Kaonashi (Sem Rosto), Sen to Chihiro no Kamikakushi é uma das mais fascinantes obras da animação da história, uma inesquecível viagem rumo a um universo fantástico. Se a criatividade de Hayao Miyazaki permanecer inalterada, podemos esperar mais uma obra-prima em 2004, com o lançamento de sua mais recente produção, "Howl´s Moving Castle". Ah, se eu tivesse uma maquininha do tempo!! ^__^"


PS: Como curiosidade, vale a pena explicar o sentido da expressão "Kamikakushi". De acordo com esta expressão, quando uma criança desaparece e é encontrada com extrema dificuldade ou reaparece sem memória, diz-se que isto aconteceu porque algum ser sobrenatural foi responsável por seu desaparecimento. Percebe-se facilmente que "Kamikakushi" se encaixa bem melhor na história do que o título nacional "A Viagem de Chihiro".


Marcelo Reis


 

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Kiki's Delivery Service (Movie)

OBS: Resenha publicada originalmente no Animehaus em 02/08/2003.

Alternativos: Kiki, A Aprendiz de Feiticeira; Majo no Takkyuubin
Ano: 1989
Diretor: Hayao Miyazaki
Estúdio: Studio Ghibli
País: Japão
Episódios: 1
Duração: 103 min
Gênero: Aventura / Infantil / Fantasia


1989 foi um ano e tanto para os fãs do Studio Ghibli, com o lançamento de dois excelentes animes deste estúdio nos cinemas japoneses. Isao Takahata presenteou o público com o inigualável Grave of the Fireflies, enquanto Hayao Miyazaki contribuiu com o divertido e sensível Kiki´s Delivery Service (Majo no Takkyuubin), um ótimo anime de fantasia que agrada igualmente a adultos e crianças.

Kiki é uma bela e alegre garota de 13 anos, pertencente a uma família de bruxas. A tradição diz que as mulheres da família, ao chegarem a esta idade, devem sair de casa em uma noite limpa de lua cheia, para começarem os treinamentos necessários à sua formação como bruxas. Ainda segundo esta mesma tradição, a aprendiz de feiticeira deve levar uma vassoura, um gato preto e usar roupa escura. Como primeira missão, esta garota deverá procurar uma boa cidade, na qual não exista nenhuma bruxa residente, e escolher um local para morar e trabalhar pelo período de um ano.

Excitadíssima com a limpa noite de lua cheia anunciada pelo serviço de meteorologia, Kiki começa a arrumar suas coisas, enquanto troca umas idéias com Jiji, seu gato preto com um senso de humor muito peculiar. ^__^ Sonhando em encontrar uma cidade com mar, Kiki e Jiji rumam para o sul, e percebem que sua missão será muito mais difícil do que pensavam. Acostumados ao clima caloroso do interior, ambos sentem que a vida na movimentada cidade grande é bem impessoal, e Kiki começa a duvidar da própria capacidade em arrumar um emprego e garantir seu sustento num ambiente tão intimidante. O acaso faz com que a única habilidade de Kiki como bruxa, a capacidade de voar com uma vassoura, se transforme num diferente negócio: serviço de entregas aéreo! ^_^

Assim como "Tonari no Totoro", "Mahou no Takkyuubin" demonstra a capacidade ímpar de Hayao Miyazaki em contar uma história de fantasia para pessoas de todas as idades. Por se tratar de um anime mais voltado ao público infantil, Kiki´s Delivery Service possui um enredo menos complexo que Nausicaa e Laputa, por exemplo, e seus personagens também são mais simples, do ponto de vista psicológico. Se, por um lado, esta pseudo-superficialidade faz com que Kiki´s Delivery Service seja menos marcante que outras obras do Ghibli no tocante ao conteúdo, por outro permitiu que este anime fosse, de longe, o mais divertido já criado por Miyazaki.


Visualmente, Kiki´s Delivery Service é uma obra de arte. Com algumas das melhores seqüências aéreas já criadas pelo Ghibli (inferiores apenas às maravilhosas cenas de Laputa) e tomadas de câmera fantásticas, Kiki´s Delivery Service é mais um exemplo da inigualável capacidade dos artistas do Studio Ghibli em jogar o queixo dos espectadores no chão! ^__^ É incrível perceber que este anime, produzido manualmente em 1989, é ainda mais impressionante que 99% das produções animadas do século XXI, que usam e abusam de efeitos computadorizados.

Os personagens, apesar de simples, são excelentes! Kiki e Jiji formam uma dupla e tanto, com diálogos hilários, nos quais cada explosão de entusiasmo de Kiki é seguida por uma ducha de água fria por parte de Jiji! Entre os outros personagens de destaque, temos Tombo, um garoto de óculos, fascinado por dirigíveis e que tenta se aproximar de Kiki, de todas as maneiras, e Osono-san, uma risonha e bem humorada senhora, grávida de muitos meses e que comanda a Padaria Gutchoki junto a seu marido, uma "figuraça" que não abre a boca de jeito algum. ^_^

Kiki´s Delivery Service ainda traz uma boa mensagem para crianças e adultos, ao mostrar que trabalho não deve ser sinônimo de castigo mas, sim, de prazer. Cada pessoa é presenteada por Deus com um dom, e cabe a cada uma delas, no seu ritmo, utilizar este dom da melhor maneira possível, não importa se trabalhando como padeira, pintora ou bruxa. Se as responsabilidades aumentam muito, o estresse ataca e a auto-confiança vai embora, prejudicando o desempenho das pessoas no trabalho e causando tristeza e depressão.



Com uma marcante trilha sonora (Joe Hisaishi, mais uma vez) completando o cenário, Kiki´s Delivery Service peca apenas pelo ritmo acelerado no final e pela exploração muito superficial do relacionamento entre Kiki e Tombo. Estes pequenos defeitos se tornam insignificantes ante à excelência do resultado final atingido por Miyazaki. O Studio Ghibli, mais uma vez, acertou na mosca!


Marcelo Reis